A TRINDADE BANTU

Seres humanos de qualquer raça, etnia, nacionalidade, religião, e modos de viver nunca primaram pela boa convivência com a o que lhes é diverso. Aparentemente tudo o que não é reconhecido como semelhante é sentido como ameaça. O que o uso da razão pode produzir para o manejo disso tem variado muito ao longo da História. A busca por comportamentos tolerantes talvez ainda tenha tido mais sucesso do que a instalação do respeito (em ampla acepção) pelo outro, especialmente quando há diferenças significativas entre indivíduos e grupos. Em culturas mais sofisticadas e tempos mais benfazejos as pessoas convivem melhor. Têm menos medos e reduzem belicosidades. A sofisticação intelectual e cultural tende a implicar maior capacidade reflexiva e crítica dos indivíduos que compõem comunidades. Com isso, crenças e valores são relativizados e ficam mais sujeitos à plasticidade influenciada por alguma percepção da complexidade do evoluir histórico. Nas últimas décadas o conceito de multiculturalismo, com variações de significação e aplicação prática, passou a circular acoplado a um valor de naipe civilizatório. Para alguns isso é algo relativamente simples, mesmo que difícil de ser implementado, para outros, os desdobramentos da globalização evidenciaram a complicação em se lidar com diferenças entre pessoas e populações. A proximidade com gente diferente e as interações inevitáveis podem ser bastante perturbadoras, impondo dificuldades de conciliação de valores, de aceitação de crenças heterogêneas e, principalmente, a conturbação das noções de direitos humanos, que costumam ser superficiais e resultar em ações bem mais precárias do que anunciam discursos “politicamente corretos”.

“A Trindade Bantu” é um romance do jovem autor Max Lobe (República dos Camarões, 1986) que trata desses temas de modo sensível e bem humorado, com inteligência e sem fanatismo. Ele tem o bom gosto de passar ao largo dos chavões, que podem ter funções espúrias e prejudicar as tentativas de minimização de problemas. Lobe conta a estória de Mwána, um jovem bantu camaronês que vive na Suíça, onde se graduou e pós-graduou e que tem grande dificuldade de conseguir trabalho. Os bantus ou bantos são um grupo populacional etnolinguístico da África subsaariana e que habita vários países e é muito plural, conforme as origens tribais. Mwána encontra-se com colegas de escola europeus que têm boas colocações e sente-se mal com a aparente impossibilidade de empregar-se numa ocupação digna de sua formação. Consegue estágio no escritório de uma militante antissegregacionista, que deseja eleger-se para cargo um político e faz campanha em torno do uso do termo “ovelha negra”, motivo de polêmica na estória.  Tal expressão é apresentada em contextos diferentes nas referências do protagonista e, curiosamente, parece ser muito mais ofensivo ou instigante entre militantes do que para ele, que seria vítima de discriminação. Exceto pela desesperadora dificuldade de ter um emprego razoável e pelo evento em que é abordado por policiais que exigem rudemente a verificação de seus documentos durante uma viagem de trem, o personagem não se sente alijado entre outros suíços. É casado com outro jovem do País e ambos ensaiam a formação de um “trisal” com um terceiro homem. Mantém hábitos alimentares que poderiam ser considerados típicos dos bantus, mas em pouco mais do que isso tem alguma ligação com sua cultura de origem. Refere especial predileção pelos caros sapatos da marca Louboutin, o que é usado com espirituosidade pelo autor. Ele tem uma irmã dotada de crenças místico/religiosas muito arraigadas e sua mãe, que ainda residia na África é trazida à Helvécia, como ele diz, para ser tratada de um câncer. Ao final a trama acaba tendo desfechos otimistas.

O charme do livro está no modo perspicaz com que trata a questão do multiculturalismo. Sem recorrer a conceitos e demandas estereotipados e que já sofreram o esvaziamento da estereotipagem, ele toca na enorme dificuldade de convivência entre pessoas de origens e culturas muito distintas, dentro de padrões de civilidade que ultrapassem as aparências convenientes. Lutar pelos direitos de imigrantes e refugiados vem se tornando quase profissão em muitas nações, mas intenções e resultados olhados pela perspectiva dos imigrantes e refugiados reais e não engajados em nos movimentos afirmativos podem estar muito distantes do que é anunciado pelos militantes da causa. A abordagem do escritor tem rasgos de graça sutil para denunciar caricaturas postas nesse tipo de cena. Nunca se mostra um insatisfeito rancoroso ou agressivo.

Fica o estímulo para reflexão sobre o que há de verdadeiro nas propostas de acolhimento daqueles que de algum modo são estranhos, especialmente quanto à extensão desse acolhimento. Também vale a lembrança das grandes dificuldades no manejo do racismo, que parecem estar longe de serem superadas através de políticas usualmente praticadas e necessitarem de preceitos derivados de compreensão profunda, com o cuidado de não alimentar e diversificar ainda mais as atitudes racistas através de revanchismo e oportunismo.

Enfim, o mundo globalizado defronta-se com desafios que tornam as soluções simplistas às vezes risíveis, mas mais frequentemente trágicas.

Título da Obra: A TRINDADE BANTU

Autor: MAX BANTU

Tradutor: LUCAS NEVES

Projeto gráfico e ilustração de capa de: LUISA RABELLO e JULIA GEISER (merecem menção por tornarem tão bonito o volume)

Editora: ÂYINÉ

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