AS MENINAS

Lygia Fagundes Telles (São Paulo, 1918-2022) foi uma mulher notável por sua postura no contexto em que viveu e, junto com isso, uma brilhante escritora. Os escritores muito talentosos amam e galgam a palavra, tornando-a engenhosa mensageira daquilo que lhes importa dizer. Quase sempre, nesses casos, desfrutamos da elegância no navegar ou cavalgar do texto e descobrimos ideias e sensações que enriquecem nosso trânsito pela vida. Na grandeza de tais autores também costuma embutir-se o talento para enxergar melhor a extensão do que é largo e os mistérios do que é fundo nos seres humanos. Lygia Fagundes Telles foi uma representante desta classe de gente.  

“As Meninas” de 1973 é um romance excepcional. Fala sobre (algo distinto de contar a estória de) três mulheres jovens que moram num pensionato dirigido por freiras na cidade de São Paulo. São estudantes, oriundas de diferentes meios sociais e com personalidades e passados muito diversos. Cada uma a seu modo parece estar iniciando a vida adulta, nas supostas margens da dissolução da meninice. Uma delas é rica e dona de aguda inteligência ingênua e “avoada” (com algum cuidado vemos que não há nisso contradição de termos), outra, rebento do casamento entre uma baiana e um alemão (talvez já tendo estado ligado ao nazismo) representa o pragmatismo e os alvoroços dos ímpetos revolucionários de esquerda (que enganosamente são de cunho político em sentido mais estreito) e uma terceira, belíssima, machucadíssima em sua infância, um tanto brutal em seu olhar para o mundo e para si mesma, é uma modelo que sofre com a dependência de drogas e álcool. Há em todas uma ternura comovente, que se transfere da alma da escritora para a alma do leitor habilitado. Elas são apresentadas de dentro para fora. Nisso escapam da artificialidade, são retratadas com a vida em estado de vibração e instabilidade. Lygia leva-nos a provar os múltiplos e indomáveis sabores que acompanham as transições, que turbilhonam, como nessas meninas, quase todo o indivíduo que existe fora dos automatismos da sobrevivência. Parecem fenômenos próprios de certos momentos de passagem, restritos a eles, mas deixam sempre travos perenes, difíceis de definir. Todavia, a escritora atenta contra a ilusão sobre a finitude das transições, que tende a organizar e confortar narrativas nas biografias de cada um. Ela desafia a veracidade da segmentação e transitoriedade nas experiências de transformação.

O romance é narrado combinando primeira e terceira pessoa. Não se trata de experimentalismo fútil. Parece fazer parte de um recurso literário destinado a apontar para o que se dá no funcionamento das pessoas ao tentarem definir e afirmar suas identidades, sem conseguirem acomodar-se numa posição segura de observação e nem na clareza da pertinência da ação. Delicadeza e refinamento em Lygia são instrumentos para dizer alguma coisa, além de louváveis qualidades em seu jeito de ser. E ela diz como mulher, de um modo raro na literatura ou em outras formas de manifestação artística, pois a tendência é de que os discursos sejam desprovidos de insígnias de gênero. Em “As Meninas” a feminilidade do dizer é tão forte que não pode passar despercebida. Reverbera como as notas de uma peça musical erudita que resiste ao apagamento. Erudita mesmo, um tipo de expressão que valoriza a fineza dos sentidos e dos gestos. Aqui a voz feminina dista infinitos dos estereótipos feministas. Uma outra questão interessante é sobre em que o livro é político. Não parece ser um libelo específico e circunscrito contra a ditadura militar, embora haja menção disso no enredo. É muito mais. É político por fazer refletir sobre a justeza do olhar, sobre as inconsistências das ideologias e seu poder de obliteração no entendimento sobre aquilo que rege os humanos, para além de sistemas de encaixotamento. É político por defender a necessidade da compreensão que não exclui incerteza, apreensão, errância e afeto. Por caminhar no sentido oposto ao panfletarismo e ao estabelecimento de noções radicais pétreas e opressoras sobre o que somos, o que devemos ser e o que podemos fazer e, especialmente, por recusar a pretensão de apropriação da verdade. Há grande força na suavidade e beleza com que isso é afirmado. A escritora lembra-nos que meninices podem não flutuar no mel ou nos perfumes de pêssego, nem habitar conchas douradas ou cavernas fantasmagóricas, que não estão isoladas nas “viagens numa droga”, que são apanágios típicos das convicções duras da imaturidade apresentadas como plataformas “panaceicas” paras resolução das terríveis mazelas sociais.

E que as meninices podem não passar nunca.

Título da Obra: AS MENINAS

Autora: LYGIA FAGUNDES TELLES

Editora: COMPANHIA DAS LETRAS

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