AS MARGENS DO PARAÍSO

A construção de Brasília, no final dos anos 1950, implicou grande pluralidade de significações e de experiências concretas, conforme as diferentes maneiras de pensar das pessoas e os tipos de relação com aquela que viria a ser a nova capital do País. Para alguns representava uma localização mais adequada, com maior potencial de integração do todo nacional no centro do poder administrativo, para outros significou oportunidade de trabalho e de inserção no tecido social e para outros ainda foi puro oportunismo. De qualquer forma, traduziu uma mudança social importante que marcou época e fomentou uma nova ilusão de que se forjava um paraíso, não só na cidade monumental, mas em toda a nação. Nas margens, brasilienses ou brasileiras, estavam aqueles que davam a solidez do corpo do Brasil.

“As Margens do Paraíso” de Lima Trindade (Brasília, 1966) é um romance cujo enredo se passa entre 1958 e 1960, tendo a “fabricação” de Brasília como parte do pano de fundo. O outro lado do cenário é o Rio de Janeiro (até então a capital do País), Anápolis (GO) e Juazeiro (BA), estas duas representando o Brasil profundo. Um painel que traz cores sutis à trama e aponta para sentidos além dela. No proscênio figuram recortes biográficos das vidas de três jovens: Leda, Rubem e Zaqueu. Vemos brasileiros em transição para a vida adulta num momento marcante de nossa História, em que se buscava o caminho do desenvolvimento. Tanto na origem como no destino os três personagens mostram elementos identitários que, guardando alguma regionalidade, são possibilidades universais nos seres humanos. E sempre importam muito.

O discurso é direto, sem lançar mão de experimentalismos e dá a impressão de que se trata de um enredo simples. Todavia, no percurso da leitura, nas singularidades dos protagonistas surgem os determinantes de suas trajetórias, uns contidos em sua intimidade e outros impostos por contextos em que vivem e dos quais pouco sabem. Essa combinação de forças, que sobrepuja vontades e projetos conscientes, conduz os três a futuros estranhos aos que previam, heterogêneos, mas articulados entre si. Até a morte ou o final do romance permanecem jovens.

O livro é dividido em duas partes: a primeira, com capítulos curtos, é constituída pelas vozes do trio citado, a segunda é toda contada na terceira pessoa, exceto pelo capítulo final. Na primeira parte Leda, Rubem e Zaqueu falam o que compreendem daquilo que são, têm e pretendem. Revelam as perspectivas ingênuas da juventude, as incertezas resistentes a clarificações e as contradições que os invadem vindas de dentro e de fora. Algo que também reflete o Brasil de diferentes épocas. Na segunda parte temos um retrato da vida daqueles habitantes ocasionais das margens da capital nascente e que trabalhavam em ou para seu centro (incluindo os três protagonistas). É ambientada na “Cidade Livre”, aproximadamente um acampamento para os operários e demais envolvidos na grande obra. Retrata algo importante das condições em que viviam e vivem muitos brasileiros e, olhando mais fundo, indivíduos de qualquer geografia.

Qualquer que seja o plano de leitura, no âmbito da nação brasileira ou dos personagens, não há simplismo ou interpretações estereotipadas. Há sofisticação na simplicidade, não muito fácil de se alcançar nos modos de fazer e de entender as narrativas que circulam pelo mundo.

Título da Obra: AS MARGENS DO PARAÍSO

Autor: LIMA TRINDADE

Editora: CEPE (COMPANHIA EDITORA DE PERNAMBUCO)

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