GIRASSOL E EDELWEISS

Muito do que acontece no planeta passa-se sem que tenhamos uma compreensão ampla dos eventos e os atores diretamente envolvidos podem não ter para nós a consistência necessária para romper o anonimato. Ouvimos falar dos horrores das guerras, mas é difícil isso impactar fortemente os que não as vivem. Temos notícias dos milhões de pessoas deslocadas forçadamente de seus países para destinos incertos e são quase sempre pessoas cujas identidades e sentimentos permanecem distantes de nós, sua existência é tomada como algo que não vai muito além de uma fotografia de jornal. Bogdan Igor Holovko (Flensburg, Alemanha, 1947) foi, juntamente com seus pais, um refugiado estrangeiro no Brasil. E quem o foi jamais deixa de ser. Alguns, como ele, conseguem superar dores para contribuir no enfretamento das mazelas do mundo a partir do que aprenderam.

O girassol é a flor nacional da Ucrânia e edelweiss é a da Áustria (também da Suíça). Holovko escreveu o bonito “Girassol e Edelweiss”, escolhendo esse título pela alusão aos locais de nascimento de seus pais, o pai era ucraniano e a mãe austríaca. O subtítulo é “Uma história à beira do esquecimento”. Embora ele tenha se ocupado de compreender melhor a sua origem e salvar do esquecimento a imagem dos pais, o livro também é tocante por conduzir o olhar do leitor para os significados de ser um refugiado e os determinantes disso. Tornou-se um empenho para de desfazer a triste e frequente indiferença daqueles que não são diretamente vitimados pelo desterro e sensibilizá-los para o problema.

Havia muita heterogeneidade entre seus pais, em suas origens, experiências e possivelmente em perspectivas de futuro. Há capítulos distintos para contar a história de cada um deles. São narrativas interessantes, que os mostra cheios de vida em suas singularidades. Também podemos saber um pouco sobre as irmãs do autor e sobre as circunstâncias em que a família foi sendo formada, assim como as grandes turbulências que teve que enfrentar e que levou parte dela à emigração. O relato pode funcionar como portas que se abrem para que possamos nos aproximar de cenários que imaginamos através de livros de História, de outras literaturas ou filmes e também de vivências autênticas que não são comuns em nossos cotidianos. Enxergar a heterogeneidade infinita na existência dos indivíduos e sociedades sem ceder demais aos temores provenientes do estranhamento e evitar as manobras de anulação das diferenças ou dos diferentes são enormes desafios no intento de preservação da humanidade (em vários sentidos). Os refugiados, depois de resistirem aos primeiros traumas do exílio passam a ter a tarefa de aceitarem a diversidade das novas terras que passam a habitar e convencer os que os abrigam a também aceitarem o que é diverso neles e a permitirem que eles não passem a vida tentando descartarem-se de si mesmos.

O autor, falando de um lugar que não é o do especialista em algum assunto e menos ainda o da academia, fornece informações interessantes no decorrer do relato e com bastante fluidez. Abordando a origem do pai, que deixou sua pequena cidade na Ucrânia para escapar dos bolcheviques, conta um pouco do que foi a constituição do estado, da nacionalidade ucraniana e das complexas relações com os povos vizinhos (e nem tão vizinhos, como os mongóis). Fala do Holodomor, “a grande fome”, causado por decisões cruéis do líder soviético Joseph Stálin quanto ao confisco da produção agrícola da Ucrânia no início dos anos 1930, levando milhões de pessoas à morte por falta de alimentos. Grande parte da população ressentia-se profundamente com o jugo imposto pelos soviéticos e saudou como salvadores os alemães nazistas quando eles invadiram o país. Todavia, em pouco tempo os sofridos ucranianos foram assaltados pelo horror da execução dos judeus e o envio à força de seus conterrâneos para trabalharem mais ou menos como escravos na Alemanha, como parte do esforço de guerra. Muito sofrimento que se somou a outros mais antigos. Holovko também trata das guerras e seu sentido para diferentes indivíduos, citando algumas observações feitas por líderes mundiais, por Freud, por Einstein e por outros, que estimulam reflexões sobre modos díspares de compreender as agressões entre as nações. Entre as citações há uma de Theodore Roosevelt, presidente dos Estados Unidos entre 1901 e 1909, perturbadora: “Uma guerra justa é muito melhor para a alma do homem do que a paz próspera”. A ideia de “guerra justa”, existente desde a Antiguidade, é por si extremamente polêmica para quem se compadece dos que são expropriados de suas vidas, barbárie que não desparece pelo fato de existirem regulamentos para guerrear.

Merece destaque a contraposição entre inferências otimistas sobre a capacidade humana para construir, preservar e desenvolver aquilo que produziu melhora das condições de vida nos últimos dois séculos (referenciado em Max Roser), juntamente com o exercício da solidariedade e da fraternidade e, ao contrário, evidências sobre desvarios de comportamento, com prejuízos importantes nas relações humanas que denotam cegueira ou negligência para com gente e com a natureza, violência e destruição, assustadoramente crescentes nos últimos anos (estudo do Massachusetts Institute of Technology e cols.).

Holovko, enquanto um cidadão do mundo, diretamente afetado pela devastação dos grandes conflitos do século XX, compartilha com o leitor informações, impressões pessoais e a manifestação de extenso anseio por paz e preservação da vida. Algo bem-vindo em qualquer tempo e lugar.

Título da Obra: GIRASSOL E EDELWEISS

Autor: BOGDAN IGOR HOLOVKO

Editora: BELLELIS EDIÇÕES

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