O CAMINHO DE IDA

Ricardo Piglia (Argentina, 1941 – 2017) foi um ótimo escritor. Falou com profundidade sobre temas difíceis, sem corromper a essência de seu pensamento com facilitações, mas de modo bastante convidativo e palatável para o leitor. Escreveu romances, contos, ensaios, um libreto de ópera (adaptação de um de seus livros) e diários.

Em “O Caminho de Ida” conta a estória de um professor de literatura (que também escrevia), Emílio Renzi, convidado para dar um curso numa universidade americana por uma de suas professoras, Ida, com quem ele tem um caso e que o fascina por características como a inteligência, a beleza e sensualidade, a independência e uma intrigante postura que oscila entre indiferença e desafio aberto às normas que regem a vida social. Depois de sua morte em condições suspeitas, que incluem a remota chance de envolvimento com o terrorismo, a atração pela figura dela ganha força e desdobra-se em inquirições quase obsessivas. Nessa etapa o que o interessa são as motivações pelas quais alguém pode agir como um terrorista, destruindo o que outros construíram ou matando pessoas. No período ocorriam atentados atingindo cientistas ou outros acadêmicos notáveis e isso era alvo de investigação pelo FBI. O homem que cometeu os crimes é identificado e preso, Thomas Munk, um matemático considerado genial, ensimesmado, vivendo quase sem transitar pela realidade consensual, sem pôr à prova nenhuma de suas hipóteses, que uma vez formuladas tornavam-se convicções pétreas. O olhar dele não tem amplitude suficiente para reconhecer e aceitar a diversidade determinada pela existência de outras pessoas com a pluralidade de valores e formas de compreensão do mundo. Suas interpretações são o único norte para programar seu destino e para agir. Enxerga lançando mão de um tipo de exatidão, mas é impermeável à verdade.

Depois de observar com atenção os grifos que Ida havia feito num livro de Joseph Conrad, “O Agente Secreto”, juntamente com informações sobre Munk que obtém através de um detetive particular, Renzi começa a supor que havia uma ligação entre o comportamento e trágico fim de Ida e as motivações do terrorista solitário (com semelhanças com o Unabomber). Nesse bojo o protagonista/narrador fala a respeito de diferentes pretextos associados aos atos violentos que algumas pessoas praticam em âmbito público. Há os que destroem e matam em nome de religiões, de ideologias, como estratégias políticas, etc, mas o que chama sua atenção é a possibilidade dessa atividade ser uma variante trágica da necessidade do indivíduo de dar algum sentido à própria existência. O que é muito perturbador por ser feito de modo tão cruel para com os outros. Thomas Munk quer atentar contra o conhecimento gerado pela ciência e pela matemática. Mira a constituição de saberes que interferem no funcionamento das sociedades tornando-as mais tecnológicas e distantes da natureza, na busca de benefícios que ele condena. Todavia, suas crenças seguem uma lógica pouco compartilhável com os semelhantes e bastante disfuncionais quando se pensa nas repercussões para as coletividades. São idiossincrasias, mesmo que ele não seja o único a sentir o que sente. Adicionalmente, são construtos influenciados pela absorção fragmentária de proposições de terceiros, como Conrad, talvez incorporadas com certa concretude para preencher o vazio detectável nos meandros da vida cotidiana e na identidade pessoal. Nisso o personagem passa a seguir crenças que elaborou em consonância com trechos de “O Agente Secreto” que havia lido repetidamente. Há certamente um grau de exegese sobre o que é dito pelo grande autor, mas também a mimetização, o que torna os atos de Munk até certo ponto mecânicos e excluídos da zona da racionalidade sustentável. Nesse contexto, destruir ou matar por uma causa alegada pode ser resumido ao mais fundamental do ato: o ímpeto de destruir ou matar, somente. Para além da dimensão das surpreendentes consequências da fragilidade humana ao constituir ou identificar razões para atos drásticos, o autor passa a discutir em plano contíguo a relação do leitor com a literatura ficcional. Com sutileza e sofisticação.

O livro, publicado pouco tempo antes da morte de Piglia, parece ter como um de seus objetivos trazer à cena uma reflexão sobre o poder da literatura ficcional nos comportamentos humanos e seu nexo com as experiências vivenciais dos indivíduos, talvez um tipo de função que é alheia à intenção dos escritores ao produzirem sua obra. Persiste a interrogação sobre o lugar das narrativas na ficção: sucedem ou precedem a realidade com que se relacionam?

Cada elemento da estória tem sentido e precisão no conjunto do que é dito. Há planos temáticos distintos, mas fortemente correlacionados. Concepções sofisticadas sobre o funcionamento do homem são o arcabouço do enredo. O nome do protagonista, Emilio Renzi (que também aparece em outros romances de Piglia), é composto com dois nomes reais de seu criador: Ricardo Emilio Piglia Renzi. O título tem mais de um significado.

O texto tem a fluidez de um bom romance policial, mas está longe de pertencer a esse gênero. Abre espaço para o debate solitário ou compartilhado sobre questões plurais e duras. Com relevo para os desdobramentos das aplicações da ficção literária, assim como suas análogas, as crenças e as ideologias, que movem as pessoas quando elas tentam, de modo brando ou extremado, escapar do aterrorizante vácuo de sentido no cerne daquilo que são ou que fazem.

Título da Obra: O CAMINHO DE IDA

Autor: RICARDO PIGLIA

Tradutor: SÉRGIO MOLINA

Editora: COMPANHIA DAS LETRAS

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