VERMELHO AMARGO

Há escritores que merecem ser lidos em voz alta. Mesmo escrevendo em prosa eles podem ser tão líricos que se desfruta ainda mais da leitura se ela for declamada. Isso vale para “Vermelho Amargo” do mineiro Bartolomeu Campos de Queirós (Pará de Minas, 1944 – Belo Horizonte, 2012).

O livro pode ser percorrido através de múltiplos interstícios ou sorvido naquilo que é lhe mais abundante, o tema maior, o amor. Mote que se desdobra em sentidos caleidoscópicos. Com as possibilidades de delicadeza e de turbulências implicadas quando se ama e quando se perde quem se ama e ainda há vacância de portador para trazer de volta o amor. Campos de Queirós fala das fontes de tal sentimento, brotando dentro e fora de quem sente, põe em foco o que o faz ganhar volume ou minguar, os recipientes onde se tenta preservá-lo, quase como uma compota que nutre de vida aqueles que estão sempre sob ameaça de inanição por inúmeras razões. “Vermelho amargo” aborda especialmente o esvaecimento amoroso até que recordação e sentimento se fundam, que predomine a orfandade, sempre concreta. Mostra os espaços vazios, de onde o amor se retirou enquanto vivente e aponta os lugares criados para alimentar sua lembrança, que talvez seja ainda mais viva ali abrigada para gestar ou tornar visíveis os passados que dão corpo à vida.

Tudo está referido à infância do autor. A morte de sua mãe, a figura um tanto brutal da madrasta, a partida de cada irmão e a vagueza da presença do pai. Vizinhos, a cidade dominada por seu rio e até o padre marcado pelo negrume da batina e o movimento de sua bicicleta. A casa da família e o quintal. As galinhas que cacarejam a saudade da mãe. O tomate, frequentador assíduo de cada refeição. Tomate vermelho, talvez uma cor apropriada para o amor. Doce quando cortado pela mãe, em quatro partes ao comprido, que eram botes salva-vidas, ou amargos, não por exato sabor, mas pelo fatiamento raivoso em rodelas, no labor da madrasta, que empunhava a faca afiada para picar até o fim o amor que lhe era estranho.

Cada parágrafo do texto faz as vezes de capítulo. As frases descrevem experiências humanas profundas, fundamentais, na aparente simplicidade do cotidiano no interior pequeno de uma Minas Gerais tão grande. As palavras parecem extraídas de profundezas numa mineração que fazem a alma suar e soar, mesmo que habitualmente esteja determinada a ser seca e muda. O amor que veio da mãe do narrador e fluirá sempre para ela, atravessando-a, transfere-se para as palavras, para modos de dizer que podem ser um jeito de colecionar tesouros. Riqueza que sobrevive quase a qualquer privação. Que não pode ser furtada. Resiliente às misérias do espírito e às fatalidades da vida. Que ultrapassa a morte.

Bartolomeu Campos de Queirós foi um poeta, sacerdote dos discursos e um tradutor das línguas tão obscuras que o mundo costuma falar.

Título da Obra: VERMELHO AMARGO

Autor: BARTOLOMEU CAMPOS DE QUEIRÓS

Editora: GLOBAL

Na ilustração a foto de obra que retrata o autor, em óleo sobre tela (100X120cm), do artista plástico MÁRIO CAFIERO    

2 comentários

  1. Caro, Luis, que beleza e profundidade na resenha do livro Vermelho Amargo de Bartolomeu Campos de Queirós. Deu vontade de reler o livro após a leitura do seu texto. Esse escritor deixou mais de 60 livros escritos. Na maioria dirigida ao público infantojuvenil. Obrigado pelo crédito. Esta obra será preservada no Museu em Papagaios, cidade mineira, onde Bartolomeu viveu parte de sua infância. Mário Cafiero

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