MORRESTE-ME

O amor entre as pessoas, essencial para a sobrevivência de quase todos nós, é um bem complexo. Como se dá com tudo o que denominamos de humano. A promessa do contrário é sempre enganosa.

Implicações dos sentimentos, ideias e ações são difíceis de prever com clareza e de controlar com precisão em seu evoluir ou quando as circunstâncias mudam significativamente. Algo que torna isso mais visível é a perda definitiva de alguém que amamos. E nada é mais definitivo do que a morte.

José Luis Peixoto (Galveias, Portugal, 1974) publicou seu primeiro livro, “Morreste-me”, tratando desse tema (ou multiplicidade de temas). Um narrador, homem jovem, fala da perda de seu pai, vítima de um câncer. Descreve seu luto. Mas isso significa, antes de tudo, desnudar o amor por aquele que foi um dos responsáveis por sua existência, por grande parte das formas impalpáveis do que ele é, como do que foi e será. Ao trazer palavras para o espaço aberto pela dor que sente, ao criar um discurso sobre isso, dá corpo ao sentimento, que sem uma tragédia como a vivida possivelmente teria outros destinos, além de outras materialidades.  Tenderia a embaralhar-se com os tantos afetos que povoam e despovoam a vida. Mesmo no caso de alguém tão definitivo como um pai. Ao preencher com o luto o vazio instaurado pela perda ele faz viver o pai, pois há muitas dimensões parra a vida. Sem nenhum apelo aos misticismos, sem contar com fábulas sobre o antes e depois da vida, ele sobrevive à orfandade. Enxerga melhor os vínculos com o homem que o gerou. Garante-os. Agradece a ele pelo que recebeu e que continuará recebendo. Concretiza a capacidade de também saber dar, como a afirmação póstuma de um aprendizado. Prontifica-se para seguir. Redimensiona a solidão. Declara-se ao mundo.

Pela biografia do autor sabemos que, apesar do livro ter sido publicado como ficção, só o é na medida em que é verdadeira. Como todas as ficções têm que ser para que sejam competentes e apropriadas para servirem a seus propósitos. Seu pai, José João Serrando Peixoto, a quem José Luis Peixoto dedica o que escreveu, faleceu imediatamente antes dele começar a escrever.

Uma demonstração de que o bem dizer e o bendizer comemoram a vida.  

Título da Obra: MORRESTE-ME

Autor: JOSÉ LUIS PEIXOTO

Editora: QUETZAL EDITORES (BERTRAND, PORTUGAL)

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