JÓIA DE FAMÍLIA

Falar sobre o humano não é necessariamente tornar claros o bastante ou inequívocos os mecanismos que movem indivíduos e grupos sociais, assim como suas identidades. Muitos tentam compreensões de maior ou menor abrangência e criam teorias sobre tais engrenagens em diferentes áreas da busca de conhecimento. Muitos mais creem que realmente existem saberes contendo a definitiva verdade nesse campo. Querem ou precisam crer. Todavia, há os que podem prescindir das certezas sem que emudeçam ao olharem para seus interiores ou para o mundo e depararem-se com uma névoa que não desaparece nunca. Distinguem momentaneamente vultos e espaços, transitam e criam discursos com assumido valor de hipóteses que não se furtam eventualmente a descartar. Não se calam diante do que ignoram, mas tomam o que pensam e dizem ou o que lhes é dito como algo frágil, instável e incompleto. Temem, mas vão adiante na tentativa de revelar o que é possível. Agustina Bessa-Luís (Portugal, Amarante, 1922 – Porto, 2019) foi capaz disso e criou preciosidades literárias a partir dessa posição intelectual e afetiva.

“Jóia de Família” é um romance que recusa aquilo que geralmente é buscado na literatura ficcional: uma linha narrativa nítida com personagens bem delineados. O enredo é repleto de reviravoltas entre construções e desconstruções do que poderia definir os atores e o que acontece com eles. É um relato marcado por circularidade (talvez por movimentos em espiral), imprecisões e contradições. Embora prometa uma trama vibrante (no início há troca de dois bebês para que um deles venha a receber uma polpuda herança; as famílias dos dois parecem apropriadas para uma estória excitante; a protagonista, a joia de família, casada com o herdeiro, pode ser inicialmente tomada por uma heroína), o que pode arrebatar o leitor está no que transcende o que é contado para dar corpo à ficção. São as observações de quem narra, sem se apresentar, é que importam.

Entram em cena formulações que atravessam os personagens, mesmo que eventualmente sejam feitas por eles. Através disso a autora pronuncia-se e faz com que seu romance seja essencialmente uma arena para a exposição de ideias e estímulo à reflexão crítica, demonstrando sempre grande respeito pela enormidade da tarefa que é tentar compreender o ser humano. Leva o leitor a curvar-se à incerteza e acertar o passo com o dela. Suas afirmações prestam-se a interrogar crenças e valores morais, desafiam os propensos a aderirem a seitas de qualquer espécie. Os sistemas ideológicos são objeto de desconfiança. Muitas vezes ela é dura na ironia. Diz, por exemplo, “Amar o próximo é tão difícil quanto produzir uma rosa azul”. Sob sua mirada as pessoas são invariavelmente complexas, não cabem em reduções estereotipadas quanto a serem boas ou más e transformam-se para sobreviver e, se possível, para ganhar poder e dominarem outras. As relações interpessoais são pouco dotadas de perenidade e solidez. Ricos e pobres, oprimidos e opressores, não diferem muito no que mais essencialmente são, o que se evidencia ao trocarem de posição. Ainda assim, têm sempre um vínculo profundo com o mundo em que se inserem, tanto no modo de exercerem o bem quanto no de fazerem o mal. E esse modo, em suas peculiaridades, tem grande importância, inclusive por determinar o relevo dos elementos contextuais da existência, relativizando questões de mérito e dissolvendo o suposto caráter absoluto dos atos e seus motivos na tentativa de separar bem e mal.

Agustina Bessa-Luís nasceu na região do rio Douro e viveu quase sempre no Porto. Tinha intimidade com o jeito de estar no mundo dos durienses e através disso falou o que pensava sobre a natureza humana. Acompanhou com atenção a democratização de Portugal após a queda do salazarismo e não se deixou iludir com as mudanças sociais, mesmo que abominasse o regime ditatorial e o funcionamento da sociedade desse período. Por suas críticas a extensões e esperanças depositadas na Revolução dos Cravos foi acusada de servilismo ao antigo regime, mas esteve sempre muito longe disso. Em “Jóia de Família” pôs em cheque a utilidade de sistemas lógicos, como o de Ludwig Wittgenstein, quando usados como instrumentos para dar conta do homem. Transpirou erudição, embora muito mais nas articulações que fez do que nas citações outros pensadores.

A edição de 2021 da editora Relógio D’Água tem um prefácio interessante de Bernardo Pinto de Almeida, mas ele fica melhor se for lido no final.

Este romance, assim como a maior parte da obra da escritora, não se presta à leitura de passatempo. Exige esforço reflexivo e resiliência ante as desilusões.

Título da Obra: JÓIA DE FAMÍLIA

Autora: AGUSTINA BESSA-LUÍS

Editora: RELÓGIO D’ÁGUA (Portugal)

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