VINDIMA

As margens do rio Douro, em Portugal, são acentuadamente montanhosas e, além de algumas zonas de cultivo cerejas, caracterizam-se por serem vinhateiras. Muitos dos vinhos portugueses nobres são fabricados com suas uvas, de múltiplas castas. A vitivinicultura nessa região remonta pelo menos à Idade Média, com os monges cistercienses que ali se estabeleceram, mas é possível que já ocorresse em tempos anteriores. Por ali nasceram alguns dos grandes escritores portugueses, como Miguel Torga (São Martinho de Anta, 1907 – Coimbra, 1995).

“Vindima” é geralmente considerado o único romance de Miguel Torga, embora alguns estudiosos de sua obra citem “A Criação do Mundo”, um conjunto de publicações de cunho autobiográfico reunidos num volume, como romance. Ele dedicou-se mais a escrever poesia, contos e diários. “Vindima” fala de um período da vida dos personagens, quando estão reunidos numa quinta nas proximidades de Pinhão, cidade duriense, para a colheita da uva e início do processo de vinificação. As relações interpessoais são o foco da narrativa. Vale sublinhar a importância dada ao ambiente regional para conformar aspectos importantes de suas vidas. Vindimeiros e proprietários da terra, que também são produtores de vinho e comerciantes do produto ocupam a cena. Num primeiro momento parece que o escritor está empenhado em mostrar basicamente as duras condições em que viviam os trabalhadores rurais de sua terra natal. Isso está descrito, mas Torga trata de bem mais. O universo patronal é visto com o mesmo cuidado e ele aponta para diversidades entre seus componentes que impedem sua homogeneização enquanto categoria, assim como acontece com seus servidores. Iniquidades daquela sociedade são destacadas. A miopia para a justeza e a brutalidade que os humanos podem exercer na convivência excedem em muito o que é comum nas relações entre empregados e empregadores. O livro sugere que as pessoas, mesmo guardadas as similitudes quanto a sua posição nos meandros do tecido social, não podem ser tomadas como indistintas. Singularidades são sempre fundamentais e desafiam as tentativas de conceber o indivíduo como produto exclusivo de seu meio. A complexidade do ser humano não é ignorada pelo autor.   

O retrato da vida no Douro naquele momento da História é convincente. Hoje há muitas diferenças e já no tempo de vida de Torga as havia, o que ele comentou. O romance é sedutor em parte devido à aparente simplicidade e evolução rápida do enredo através de capítulos curtos, mas a possibilidade de vislumbrar a vida dos vinhateiros e de fazer um exercício reflexivo a respeito de ética ao longo da leitura, contam bastante. No núcleo dos vindimeiros todos são moradores da mesma cidade, Penaguião, e têm vínculos bem definidos já antes do início da estória, momento em que, além de fazerem parte de um grupo coeso de trabalhadores, compartilham a cardenha, recinto em que dormem, separados, homens e mulheres. Estreitam o contato. As diferenças de valores entre eles determinam episódios de conflito. Do outro lado, os personagens de vida mais farta, fazem contraponto aos primeiros, embora tal oposição seja verdadeira somente dentro de certos limites. Quase todos os que desfrutam de melhor situação financeira são habitantes da cidade do Porto e há um médico de Lisboa. Neles também está representada pluralidade moral e de modos de ação. A maior parte deles, independentemente de classe social, tem limitações relevantes e acaba tendo que enfrentar dificuldades grandes. Há algo de trágico que atravessa as vidas de quase todos e que relativiza o poder do dinheiro.

O texto não tem o lirismo dos contos e poemas de Miguel Torga, mas não carece de sensibilidade e beleza.

Título da Obra: VINDIMA

Autor: MIGUEL TORGA

Editora: D. QUIXOTE (Portugal)

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