O LUTO DE ELIAS GRO

Em consonância com a grande pluralidade nos modos de ser das pessoas, as reações às perdas podem variar tão amplamente que fica difícil criar uma definição unificada para essas experiências. Geralmente a palavra luto é usada para falar de estados emocionais e de atitudes marcados por alguma tipicidade dentro de cada cultura quando ocorre um finamento. Há grande complexidade nesses processos. A maioria implica dor psíquica pelo vazio na ausência radical de alguém próximo. Mas também importam outras formas de privação, como as relacionadas com expectativas não cumpridas, projetos cancelados, dissolução de esperanças e outros esvaziamentos. Os desdobramentos do luto são relativamente imprevisíveis. Pode acontecer de, ao invés dele ser mitigado e fazer submergir temporariamente a ideia de finitude, dando passagem às forças que criam as pulsações características do engajamento na vida, torne-se uma condição perene, criando novas razões para que o enlutado persista e sobreviva. Passa a ser componente significativo de sua identidade, determinando formas de interação com o meio. Isso não significa necessariamente o cultivo do sofrimento e desinteresse pelo mundo.

“O Luto de Elias Gro” do português João Tordo (Lisboa, 1975) transita por algumas diversidades possíveis na noção de luto. É como se ele usasse um caleidoscópio para sensibilizar o leitor quanto ao fato de que pode haver muito mais do que estereótipos no destino dos que sofrem as amputações causadas pela morte de gente amada ou são vitimados por escassez de amores imprescindíveis.

O livro conta a estória de um homem que, por perder a mulher e um bebê durante o parto, sente esvaírem-se os sentidos que havia recém conquistado para justificar sua existência. Parte para uma ilha, buscando retirar-se da humanidade. Lá encontra um sacerdote e sua filha que, pelejando com os próprios lutos, resgatam o protagonista, criando vinculações que ele pretendia não ter mais. Seu entorno passa a ser povoado pelos que buscam ultrapassar a solidão, experimentar solidariedade e salvaguardar a confiança essencial em outros humanos. Gente que não desmerece o desejo de estar viva e acompanhada. Ele é afetado por isso e transforma-se, apesar de sua resistência. Insuspeitados elementos de religiosidade em sua tragédia e o desenvolvimento de resiliência são motes para reflexões propostas pelo autor.

Tordo afirma que “perdas não são mensuráveis”. Não se pode ignorar as singularidades próprias de cada pessoa ao ter que enfrenta-las. Há uma dimensão nesses processos em que é necessário encarar o fato de que “O inferno não são os outros. Somos nós…”. No fluir do enredo, todavia, os outros também parecem dotados de poderes infernais para dissolver as convicções de que se pode compreender claramente a vida e assim substituem o conforto dessa ilusão pela comunhão com os semelhantes (que o são onde não parecem). Mesmo sustentando a ideia de que aquilo que é mais difícil de ser manejado reside no interior de cada um, os outros contribuem para a aquisição de um saber fundamental: o de que em cada luto há sempre a falta de algo que não foi perdido, pois nunca foi havido. “A determinado momento, mais tarde ou mais cedo, teremos de encarar a inquietação que nos corrói e que faz doer a maior ferida de todas – a que está no centro do nosso peito e à qual chamamos, à falta de melhor palavra, vazio.”

O romance é repleto de citações de mitos bíblicos e pagãos, assim como de ideias de filósofos ou de outros escritores. Tais citações não têm a função de carregar ensinamentos no que dizem, mas sim no que falham em dizer, na impossibilidade de que o vazio seja eliminado na constituição de saberes tomados falsamente como verdades sólidas e imorredouras. Os ditos não explicam as causas do que se dá com as pessoas, são impotentes ante sua complexidade mutante e nem esclarecem seus comportamentos reativos. Sugere que tal pretensão é uma forma de insanidade, uma obsessão que também não tem poder contra esse vazio: “O louco é aquele que vê causas em tudo, e essas causas remontam a outras causas, e ainda outras mais distantes…”

Uma narrativa que não anda rápido, mas aproveita as oportunidades de percorrer os nós do tema, descrevendo suas texturas, sem os desatar.

Título da Obra: O LUTO DE ELIAS GRO

Autor: JOÃO TORDO

Editora: COMPANHIA DAS LETRAS (Portugal)

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