UM CARRETEL DE LINHA AZUL

Sentir-se parte de uma família é algo importante para a maioria dos seres humanos. Isso vale nos mais diversos tipos de constituição familiar, para além das definições de dicionários, outros dispositivos semânticos ou grilhões morais. Dentro e a partir das relações familiares os indivíduos ganham identidade e referenciais para dar sentidos ao mundo e passar a frequentá-lo como atores. Todavia, em algum momento surge o desejo de diferenciação e mesmo distanciamento do núcleo familiar originário. Eventualmente ocorrem rupturas drásticas de vínculos. Passa a ter grande valor um tipo de autonomia no transitar pela vida, sem o que há o risco da pessoa murchar e, de certo modo, fenecer. Às vezes criam-se situações dramáticas para justificar afastamentos; vistas de perto, muitas são inconsistentes com os gestos. Entre os mais corajosos não é preciso “dramalhar”, aguenta-se o desconforto e segue-se em frente, para longe, mesmo que não se saiba com clareza o porquê. Sem protagonismo de motivos explícitos. Esse é o mote do romance “Um carretel de Linha Azul” de Anne Tyler (EUA, 1941).

As estórias que vão tecendo a trama são contadas com a coloquialidade de conversas em família, mesmo tendo um único e externo narrador. A simplicidade formal e fluidez o texto pode fazer parecer que se trata de literatura ligeira de passatempo, mas é muito mais do que isso. Talvez aqui resida uma das marcas de sofisticação da autora.

A trama percorre quatro gerações de uma família e mostra como forças motrizes semelhantes reproduzem-se através do tempo e da diversidade de personalidades e de contextos. Importam os modos como tais forças se expressam, mas isto não implica diferenças de natureza em sua função no psiquismo dos personagens. Grande parte do enredo acontece em Baltimore, Maryland, entre a primeira metade do século XX e o início do novo milênio. É gente que faz parte da classe média norte-americana e, mesmo havendo características de uma certa regionalidade, o esteio da obra é universal. Poderia ser ambientada em quase qualquer tempo e lugar do planeta. Trata de questões que afetam pessoas em múltiplos cenários. Fala de engrenagens que exigem atenção para a diferenciação entre o colorido sociocultural e aquilo que têm de mais essencial em sua ontologia e que são pouco impactadas por determinantes circunstanciais. Tyler tem o olhar agudo e a sutileza que o tema exige, ela instiga o leitor a refletir e concluir para além do que é mais evidente. Nada é óbvio e a leitura é saborosa.

Título da Obra: UM CARRETEL DE LINHA AZUL

Autora: ANNE TYLER

Tradutora: ADRIANA LISBOA

Editora: TUSQUETS (EDITORA PLANETA DO BRASIL)  

 

2 comentários

  1. Anne Tyler! Viva! Nos anos 1990, li muito a autora. Depois, acho que nunca mais. Turista acidental é inesquecível. Ah, já vou pôr na minha lista O carretel de linha azul, Luís. Um beijo e obrigada pela boa lembrança.

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