O DUELO

O duelo, em geral entre aristocratas, era um evento notável até o final do século XIX, mesmo que proibido e passível de punição legal. A defesa da honra era o motivo mais comumente alegado, mas também poderia ocorrer por conflitos diversos. Anton P. Tchekhov (Taganrog, Rússia, 1860 – Badenweiler, Alemanha, 1904) escreveu uma bela novela intitulada “O Duelo”. O autor é mais famoso pelos excelentes contos e peças teatrais que abordam a vida cotidiana na Rússia de seu tempo.

A estória dessa novela é centrada no conflito entre dois homens, um funcionário público da baixa nobreza e um zoólogo. Outros personagens têm importância, mas sempre por girarem no universo dos protagonistas. Passa-se numa cidade litorânea minúscula do Cáucaso, região que está no limite entre Ocidente e Oriente. O primeiro protagonista apresenta um tipo de negligência inteligente ao transitar pelo mundo. É capaz de compreensão intelectual e é dotado de sensibilidade, mas abstém-se de intervir para melhorar sua realidade quando isto demanda qualquer esforço. Vive com uma mulher casada com outro, o que também tem mais de displicência transgressiva do que de rebeldia relativa aos costumes; além disso, ambos são bastante superficiais quanto aos afetos que os unem. O segundo personagem defende ideias eugenistas e um modelo idealizado de funcionamento social radicalmente intolerante com pessoas como o primeiro e do mesmo modo às fragilidades, imperfeições e diversidades que ele não entenda. Parece austero. Enaltece a violência e destruição do que foge a seus valores e concepções, parecendo acreditar que isto propiciará mecanismos sociais eficientes para o desenvolvimento, através da seleção e aperfeiçoamento dos indivíduos e coletividades. Ideologias próximas à dele foram bastante alardeadas e pregnantes nas justificativas de constituição de sociedades totalitárias do século XX.

Embora os dois homens batam-se em duelo, ou num arremedo disso, o que importa na obra é o que defendem e como se comportam onde vivem, as razões de suas incompatibilidades. Tchekhov aponta para a existência de certas tendências, ideias e embates que talvez tenham existido desde sempre no interior dos agrupamentos humanos. Geralmente emprega-se camuflagem para ocultar sua verdadeira natureza. Porém, as fantasias que disfarçam a brutalidade de cada um podem ser rompidas sem espadas ou armas de fogo. Sem tais disfarces resta a precariedade dos comportamentos efetivos frente aos ideais de fraternidade, justiça e civilidade. Algo característico do ser e que prepondera sobre todas as roupagens usadas no intuito de iludir com alguma promessa de superioridade moral.

Parte dos estudiosos dos clássicos da literatura incluíram esta novela entre as obras clássicas russas que se ocupam do conceito de “homem supérfluo”, especialmente as escritas por Ivan Turguêniev (presente no texto, entre as diversas citações). Todavia, o que Tchekhov mostra no homem é algo nada supérfluo que está para além do desencanto com ideais e crenças ou com o conhecimento e a possibilidade de realizações pragmáticas norteadas pelo intelecto bem formado. Está mais próximo do grifo no Mal estrutural, componente trágico de que as pessoas têm muita dificuldade se libertar, mesmo lançando mão de intricados recursos que fazem vezes de falsos caminhos de acesso ao Bem.

E que classe em Tchekhov para dizer o essencial!

Título da Obra: O DUELO

Autor: ANTON PÁVLOVITCH TCHEKHOV

Tradutora: MARINA TENÓRIO

Editora: 34

6 comentários

  1. Bela resenha, Luís. Você sabe, sou tiete dos russos e, principalmente, de Tchekhov. Você falou sobre “o homem supérfluo”, do Turguêniev e me lembrei que há pouco li outro russo (pra mim, desconhecido), Oblóvov, de Ivan Gontcharóv, que também remete a essa questão. É muito bom. Ouso recomendá-lo a quem sempre recomenda tão bem. Beijo.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oi Anaelena
      Aceito agradecido sua recomendação. Acho que temos gosto parecido e alguns dos bons livros que li foram indicações suas.
      Muito obrigado pelo comentário, sempre gentil
      Um beijo

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  2. Al leer la reseña de Luis resulta muy apetecible localizarlo en español o ingles y leerlo.
    El que si he leído es un libro del mismo titulo de Joseph Conrad, editado en España por Alianza editorial y publicado por primera vez en 1908. Este otro libro toma como asunto el enfrentamiento de dos oficiales del ejercito de Napoleon y esta basado en un hecho real. Trata del enfrentamiento de dichos dos oficiales a lo largo de los años y que por diversos motivos nunca culminan ni resuelven sus enfrentamientos.
    Con el nombre de Los duelistas y basado en dicho libro se realizo en 1977 una película, que dirigió magistralmente Ridley Scott ,muy del estilo y la moda de la época de Barry Lyndon .

    Curtido por 1 pessoa

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