TODOS OS FOGOS O FOGO

Julio Cortázar (Ixelles, Bélgica, 1914 – Paris, 1984), um dos mais notáveis escritores argentinos do século XX (nasceu na Bélgica por razões circunstanciais), escreveu em forma de poesia, teatro, romance e conto. Foi um dos principais representantes do que se chamou de “boom da literatura latino-americana”. Embora seu mais célebre livro seja um romance, “O Jogo da Amarelinha”, os contos são a marca maior de sua trajetória literária. No conjunto permitem ao leitor vislumbrar a relação do autor com a percepção de seu universo, cronológico e também atemporal. “Todos Os Fogos O Fogo”, publicado em 1966, trouxe inovação formal com feitio próprio (muitos outros também inovavam). Juntamente com isto, o que Cortázar diz importa, não se reduz a pretexto, é sempre cerne. Não há futilidade nas maneiras com que rompe o convencionalismo na escrita, a arquitetura dos textos é carregada de sentido. Cada um dos oito contos que compõem o livro seduz o leitor de um modo diferente. Não há monotonia. Um dos talentos de Cortázar é a capacidade de superar a banalidade sem afetação. É como se ele apontasse para a presença de elementos essenciais e nada óbvios na caracterização daquilo que transforma parte dos seres em humanos, através de ocorrências cotidianas de aparência relativamente comum, mas que são sempre oportunidades únicas de afirmação desta modalidade de existência. O olhar é agudo e, ao dizer o que vê, é elegantemente regrado por um tipo de economia estética. O que tem aparência de absurdo somente reflete certas dimensões da realidade em que, evidenciando o bom exame, dissolvem-se os invólucros que disfarçam a absurdidade. Desconcertam-se os que se fiam em coerência inteligente e padrões naturais passíveis de previsibilidade nas engrenagens que fazem girar o mundo. Certezas são quase sempre armadilhas para aprisionar ingênuos. Nisto reside uma compreensão da vida, em que o trágico submete o dramático. Há implícita a sugestão de que se aprenda a caminhar pela névoa e onde o chão não é firme, controlando temores diante do que é desconhecido (como o é tudo o que está à frente). Certamente o impacto deste livro na época de sua primeira publicação foi determinado inclusive pelo que acontecia em diversos países ocidentais, para além da literatura. Havia algumas ordens político-ideológicas para as quais ele poderia servir como discurso de admoestação e outras que o tomariam como adesão e incentivo. Tudo transformou-se com o tempo. Convulsões estão menos explícitas. Hoje a obra está depurada de seu contexto de aparição, assim como outras de Cortázar. Pode ser degustada pela grande qualidade que tem como criação ficcional e arauto dos rigores daquilo que é verdadeiro.

Título da Obra: TODOS OS FOGOS O FOGO

Autor: JULIO CORTÁZAR

Tradutora: GLÓRIA RODRIGUEZ

Editora: Best Seller   

5 comentários

  1. Oi, Luís, que alegria ler esta excelente resenha de Todos os fogos o fogo. Você me levou ao início da década de 1970 e me fez recordar muita coisa boa. Além, é claro, de me deixar com vontade de reler o livro, mais uma vez. Salve Cortázar. Beijo.

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