OLIVE KITTERIDGE

Somos responsáveis pelo que somos. E pelo que fazemos. Sempre. Com frequência ficamos desconcertados quando nos damos conta de que não deliberamos, não escolhemos livremente nosso modo de ser e mesmo os atos que praticamos e, que ainda assim, não podemos delegar a responsabilidade disto aos outros, os que nos geraram ou formaram, como os familiares e o meio em que estamos implantados (mesmo que tenham contribuído intensamente para nossas existências). Além disso, também ficamos eventualmente surpresos quando aquilatamos o pouco sabemos sobre o que somos e as consequências do que fazemos. Em “Olive Kitteridge” estes temas são tratados com autenticidade e precisão. Elizabeth Strout apresenta-nos uma curiosa professora de matemática, a personagem que dá título ao livro, em diversos contextos ao longo de muitos anos. Podemos ter a impressão de estar lendo um conjunto de contos, mas trata-se de um romance com formato bastante original. Múltiplos personagens dão voz ao pensamento da autora. Um coro grego num cenário da Nova Inglaterra (EUA). O que é mais fundamental aparece em aspectos cotidianos de vidas simples. Mesmo havendo situações de dramaticidade maior, a emoção que delas emana reside em sutilezas quase murmuradas.  Em outras escritas talvez não estivessem expostas. Nada é banal. Nada é pequeno. Olive aparece em todas as estórias e as costura, fazendo evoluir e dando unidade aos temas da obra.  Mulher sem grande refinamento intelectual, com reduzida aptidão para interações sociais e afetivas, experimenta os sobressaltos que podem perturbar as trajetórias de qualquer pessoa. O que é notável nela não é o que poderíamos qualificar de incomum. Suficientemente inteligente e honesta, não se isenta das percepções mais desconfortáveis que os anos vividos trazem. Não se esquiva voluntariamente. É um tanto míope para apreciar criticamente a si mesma. Nunca trôpega, antes ou após suas quedas. Assume sua sorte. Vive. É fiel. Sofre. Aprende a gozar o pouco que lhe cabe. Strout ganhou o Prêmio Pulitzer de ficção com este livro em 2009. Sua prosa é delicada. Nunca enfadonha.  Seduz o leitor menos pelos eventos contados do que pelos sentimentos de timbre universal que desperta por seu modo de conta-los. Constrói um texto economicamente poético. Quase seco. Convence e faz o leitor aproximar-se tanto de Olive que ele acaba por não saber se a observa fora ou dentro de si.

Título da Obra: OLIVE KITTERIDGE

Autora: ELIZABETH STROUT

Tradutora: SARA GRÜNHAGEN

Editora: COMPANHIA DAS LETRAS

olive

 

6 comentários

  1. Também adorei. A sėrie da HBO retratou com maestria a obra. Strout extrai a sensibilidade e vulnerabilidade que existe em cada um de nós de forma poética. Obrigada Luis.

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  2. Ah, Luís, que bom ver esta sua resenha. Gostei demais desse livro, li há algum tempo, me encantou, tanto na forma quanto no conteúdo. O livro me pareceu meio assim como: a vida como ela é. Li acima que alguém já lhe indicou Lucy Burton, da mesma autora, Procure-o, sim. Beijo pra você.

    Curtido por 1 pessoa

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