MIGUEL TORGA

Afetos podem ser inescrutáveis para muitos. Também podem, vislumbrados, pressentidos ou encarados frontalmente. Podem ser desconfortáveis e até assustadores se forem indícios da impotência do humano diante da Natureza, da brutalidade nas interações entre os que se odeiam e os que se amam, da destrutividade miserável de finalidades de que são capazes as pessoas, do falseamento onde não há o que oferecer de autêntico, às vezes também do amor que é amor, da generosidade, e algo mais. Há gente que além da inteligência necessária, tem força para sentir e poesia para falar sobre os afetos que regem as vidas dos humanos e de outros bichos. O português Miguel Torga, pseudônimo literário de Adolfo Correia da Rocha (São Martinho de Anta, Trás-os-Montes, 1907 – Coimbra, 1995), construiu sua obra abordando destemidamente este tema (embora outros também importem). Nascido numa família de poucos recursos materiais, começou a trabalhar muito cedo, empregando-se como faxineiro, porteiro e jardineiro. A primeira instrução escolar foi no seminário do Lamego, mas ele não sentiu a vocação para tornar-se um homem da Igreja. Viajou para o Brasil e foi agricultor em fazendas de café nos anos 20. Retornou a Portugal. Estudou. Tornou-se médico. Enriqueceu-se apreendendo as engrenagens do mundo através de olhos humildes, ávidos e graves. Compreendeu as dores do viver, as significações que podem ser dadas ao morrer e o empenho indispensável para rumar à luz que nutre. Não se furtou aos gozos possíveis. Engrandeceu-os. Respeitou-os. Fruiu-os com discrição. Enxergou e tentou fazer enxergar a beleza que pode ser destilada em tudo isto. Escreveu muito. Seus textos são sempre poesia. Em prosa ou verso. Com belíssimos livros como “Bichos”, “Contos da Montanha”, “Rua”, “A Criação do Mundo”, bem-disse a vida e as turbulências do sentir, nela. Mostrou como dela pode-se sorver o bem quando se tem olhos grandes e humildes.

Torga

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