LINCOLN NO LIMBO

Abraham Lincoln (Hodgenville, 1809- Washington, 1865) é um ícone da história dos Estados Unidos da América. Décimo sexto presidente americano, assassinado pouco tempo após ser reeleito para um segundo mandato, além de ser notável por sua postura humanitária e coragem para sustenta-la nos momentos mais difíceis, tinha grande habilidade política. Combateu o escravagismo que sustentava a economia dos estados do sul do país (mais agrícolas), e encabeçou a libertação com a “Proclamação de Emancipação” em 1863. O movimento abolicionista teve íntima relação com o desencadeamento da Guerra Civil (Guerra de Secessão). Diversos estados sulistas, que não queriam o fim da escravidão, juntaram-se na “Confederação dos Estados Americanos”, pretendendo a separação dos estados do norte, que se industrializavam, e agruparam-se sob a denominação de “União”. Lincoln não só governou durante este sangrento embate, esteve em seu cerne. Milhares de americanos morreram. Surgiram intensas polêmicas em torno do papel do Presidente. Poderia ou não ter evitado o derramamento de sangue? Deveria ter apressado seu encerramento? Angariou muitos inimigos. Letais. George Saunders (Amarillo, Texas, 1958) venceu o “Man Booker Prize” em 2017 com o romance “Lincoln no Limbo”, no qual, de maneira pouco convencional articula questões deste período histórico. O escritor pôs em cena um grande número de fantasmas circulando em torno de Willie, recém falecido filho do Presidente, um novato num mundo aquém do além, o limbo. A alma do menino correria grande e vago perigo, do qual outras almas empenham-se em salva-lo. Criam-se tormentas. Busca-se superação. Entre as muitas preocupações humanas que não encontram soluções que as enterrem, aparecem a morte, os valores que dignificam a vida, os direitos e deveres que cabem aos indivíduos, a tolerância, a bravura, a medida da rendição às leis da Natureza e muito mais. Neste livro, os mortos, rebeldes à morte, dão vida a tais temas. Estão na zona de indefinição. Perdidos em afirmações que impedem de serem transfiguradas em perguntas. Fogem do sofrimento e temem a extinção. O Lincoln morto na estória é o filho, William. Ainda assim, o pai, Abraham, vivo, também está num limbo. Como emblema de tudo aquilo que se quer transformar em ideal, em guia, em mito. O limbo também é o lugar eterno do ser humano. Desejante. Míope para os caminhos percorridos. Cego para os caminhos a percorrer. Morrendo e nascendo. Sempre em transição. Sem destino.

Título da Obra: LINCOLN NO LIMBO

Autor: GEORGE SAUNDERS

Tradutor: JORIO DAUSTER

Editora: COMPANHIA DAS LETRAS

limbo

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6 comentários

  1. Ah, Luís, assim não vale. Eu querendo saber se o livro é bom e nada de você dizer. Ficou no limbo tsmbém. rsrs… Beijo.

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    1. Olá Anaelena,
      Apesar de ter andado aterrorizado com tantos vampiros e mortos vivos nas livrarias recentemente, o que teria sido suficiente para que eu passasse ao largo, li este romance por ter ouvido um elogio que despertou meu interesse. O prêmio ajudou. Não desgostei. Os assuntos tratados (de soslaio) são relevantes. Possibilita uma leitura é ágil. Não consegui alcançar algum sentido para o experimentalismo do autor (se o tem). Não me pareceu esteticamente justificável. Você tem razão, fiquei num certo limbo. Se eu fizesse parte do júri que o escolheu para o Man Booker Prize, provavelmente teria sido voto vencido. Obrigado por comentar
      Beijo

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  2. Caro Dr. Justo,

    Excelente e bastante detalhada sua narrativa, parabéns. O Senhor escreve muito bem além de ser um excelente médico.

    Tive a oportunidade de ler a biografia completa deste grande líder Americano e gostaria muito que até mesmo os nossos “xiitas esquerdopatas” pudessem ter a curiosidade de ler algo sobre Lincoln para sentirem de perto o que de fato é ser um líder da maioria, sem nunca ter que lançar mão de populismos baratos.

    Diversas e não foram poucas, as decisões que ele teve que tomar e liderar ao longo de sua primeira gestão, quando os Estados do Sul e do Norte estavam em guerra, além de toda a problemática e enfrentamentos em torno da guerra contra a Inglaterra (Os EUA daquela época não tinham exércitos e nem mesmo armas e equipamentos para o enfrentamento militar contra a Inglaterra).

    Ele conseguiu unir dois Estados em guerra, formar um exército sem armas, driblar a questão racial que imperava entre os Estados do Norte e do Sul e combater um inimigo externo fortíssimo e altamente militarizado, no caso a Inglaterra. Venceu a guerra e conseguiu ainda lançar os fundamentos de uma Constituição que até os dias de hoje é seguida além de fazer dos EUA uma Nação que nascia muito forte rumo ao desenvolvimento.

    Para mim, sem dúvida um dos maiores ícones da história Americana.

    Alcides

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