UMA OUTRA JUVENTUDE

As dimensões mágicas do pensamento são anteriores ao desenvolvimento das capacidades reflexivas lógicas. O homem nunca transitou à vontade pela realidade objetiva, cuja apreensão e manejo implicam desafios. Os processos mais sofisticados de ajuizamento crítico foram conquistas evolutivas. E muito onerosas. Mitificar é um dos recursos mais antigos da vida intelectual humana. Permeia todas as culturas. Crenças sempre foram erigidas e aceitas prescindindo de limitações críticas mais exigentes. O escritor (talvez valesse qualifica-lo antes como historiador e pensador) romeno Mircea Eliade (Bucareste, 1907-Chicago, 1986) teve sua curiosidade voltada para este aspecto do intelecto. Parece ter cultivado sua grande erudição impulsionado pelo fascínio diante do poder do imaginário e da fusão entre o fantástico e o natural, ao longo da história das civilizações. Talvez também tenha se deixado seduzir pelas eternas tentativas, que tantas versões assumem, de substituição da consciência da finitude da vida, da “nadificação”, pela esperança de transformação em outras formas de existência. Ocupou-se da angústia gerada pela percepção de fragilidade ante as forças brutais da Natureza, para as quais as significações são externas, e sua relação com as elaborações mitigadoras, no intuito de justificar o trágico que se abate sobre o homem sem fornecer sentidos ou justificativas. Eliade é considerado o fundador da moderna História das Religiões. Tem importante obra nesta área. Escreveu ensaios sobre a função do mito no pensamento e no psiquismo. Procurou entender as manifestações da ideia do sagrado através das diferentes culturas. Criou inclusive um termo para isto: hierofania. Também produziu textos ficcionais. Um exemplo é a novela “Uma Outra Juventude”, que foi adaptada para o cinema por Francis Ford Coppola. Nela, um octogenário é atingido por um raio, quando já apresentava sintomas de demência, e rejuvenesce, além de adquirir capacidades intelectivas excepcionais. Aqui, importam as vicissitudes da trajetória do protagonista e o desfecho da trama. Temos a oportunidade de vislumbrar o que, em Eliade, foi captura dos anseios humanos frente ao impacto traumático do assalto do desconhecido e das inevitabilidades, especialmente da morte. Também sua percepção das regências autônomas da Natureza e do que é imperativo naquilo que escapa aos recursos do conhecimento racional e demonstrável empiricamente. Ele ressalta certos aspectos do viver que só têm consistência na forma de questões. Respostas seriam pertinentes à ficção.  Assim, lembra ao leitor que o conhecimento científico tem limitações significativas e que os eventos do Universo são parcamente abarcáveis pela inteligência humana. Entre os enigmas persistentes está o Tempo. E, Eliade põe sob dúvida, de modo lúdico, as concepções correntes sobre seu fluxo unidirecional. Alude à ideia de reversibilidade temporal. Utiliza a fantasia de existência simultânea em diferentes planos espaciais e temporais. Dá lugar a formas um tanto marginais de interpretação dos eventos naturais. No entanto, não tão à margem quando olhamos mais amplamente para as estratégias que os indivíduos usam para suportarem o que ignoram.

Título da Obra: UMA OUTRA JUVENTUDE

Autor: MIRCEA ELIADE

Tradutor: FERNANDO KLABIN

Editora: 34mircea

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