O EXPULSO

Samuel Beckett (Dublin, 1906 – Paris, 1989) viveu intelectualmente grandes conturbações que podem assolar algumas pessoas na busca compreenderem o que são e o mundo em que estão. Assistiu às atrocidades das duas grandes guerras mundiais. Também aos esforços dos pensadores de seu tempo para agir, reagir ou ao menos dizer algo frente a realidades brutais. Fez parte disso, mas talvez tenha escrito principalmente para manifestar sua crença na impossibilidade de construir uma narrativa que desse sentido confiável à vida. Nisto, mirou bem além do impacto desorganizador dos eventos catastróficos que testemunhou. Suas questões partem da percepção do viver como um transitar compulsório e vazio por espaços inóspitos e estranhos. O que se tornaria mais evidente quando a procura de finalidades e significados estáveis é incisiva. O pequeno texto ficcional intitulado “O Expulso” trata disso. Utiliza um falar preciso, mas com aparência de vagueza. O foco está na exclusão inevitável do indivíduo com relação  às estruturas idealizadas para serem abrigos ou referências consistentes para a vida. Lugares impossíveis, quando aparentam o contrário. As menções a origens, passado, História ou as perspectivas de futuro provocam a sensação de irrelevância. Onde há impressão de poder pelo exercício da vontade, impõe-se a certeza de submissão ao contingente. E este habita o presente. Para o autor parece não haver permanências estruturantes. Todas as posições que se possa ocupar são frágeis. O dizer reflete a vacuidade do que pode ser experimentado. Resta aos personagens deste mundo vagar e esperar. Uma curiosidade sobre este conto de Beckett é que ele enviou uma primeira parte, intitulada “Continuação”, para a revista “Les Temps Modernes”, dirigida por Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir, sem avisar que haveria uma segunda. Foi feita a publicação desta parte, em 1946, sem que se suspeitasse de que o trabalho estava incompleto. Aparentemente os editores sentiram-se constrangidos com o ocorrido e não publicaram a continuação propriamente dita, quando a receberam. “O Expulso” apareceu  na íntegra pela primeira vez em 1947, na revista “Fontaine”. Um fato cabível na ficção “beckettiana”.

Título da Obra: O EXPULSO, incluída no volume “NOVELAS”

Autor: SAMUEL BECKETT

Tradutora: ELOISA ARAÚJO RIBEIRO

Editora: MARTINS FONTES

Beckett

 

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