Apesar de existirem diversos modos para que uma pessoa descreva a si mesma, todos parecem tentativas destinadas à falha. É virtualmente impossível alguém dizer, diretamente e com suficiência, quem é. Mesmo que a intuição aponte para o contrário. Autobiografias e livros de memórias tendem à ficção sem que o pretendam. Em “Diário de Inverno” Paul Auster (Newark, EUA, 1947 – Nova York, 2024) mostrou talento para falar de aspectos de sua vida. Usou a segunda pessoa. Parece dirigir-se a si, antes de outros. Recurso instigante.
Sem construir uma narrativa linear, permite que o leitor entreveja o homem que ele foi. Trata-se de uma coletânea de lembranças. E elas são críveis. Poderiam compor a história de muitos de nós. Usam fatos e referências sólidas para criarem um esboço sobre os afetos que deram estrutura ao autor, em sua dimensão pessoal. Auster busca alguma materialidade para ancorar suas impressões sobre o que viveu, o que crê ter sentido no passado e, especialmente, o que sente no presente em que escreve sobre eventos e pessoas. Atrela-se ao próprio corpo, veículo de seu existir, aos endereços em que residiu, lugares onde esteve, e sucedâneos. Aponta para aquilo que o torna frágil, talvez comum. Não subtrai informações que evidenciam isto. É também forte e raro, inclusive por isto. Assim, pode falar mais e melhor, mesmo quando não esperava ter compreendido a si mesmo e ao mundo na extensão do seu projeto para isto. Define o momento em que se revela como o portal do inverno de sua vida. Todavia, não faltam elementos de primavera. Que para sorte dos que vivem muito, podem surgir em qualquer estação. Um grande escritor.
Título da Obra: DIÁRIO DE INVERNO
Autor: PAUL AUSTER
Tadutor: PAULO HENRIQUES BRITTO
Editora: COMPANHIA DAS LETRAS

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