Benjamin Moser, o autor americano da melhor biografia de Clarice Lispector já escrita, havia demonstrado ser capaz de análises profundamente inteligentes quando nos contou sobre como ela viveu e, mais ainda, ao analisar sua obra. Seu interesse pelo Brasil levou-o a voltar a atenção para outros personagens de nossa História e aspectos do funcionamento da sociedade brasileira. Moser declara que não é um “brasilianista”, mas é notavelmente um bom observador e bastante corajoso ao manifestar suas opiniões.
Este livro é composto de três ensaios em que ele evita armar-se em acadêmico (que realmente é) para transmitir algumas impressões curiosas sobre o nosso País. O título do ensaio que dá nome ao pequeno volume, “Autoimperialismo”, traz possivelmente a ideia mais instigante em sua tentativa de compreender a razão do Brasil não ter deixado nunca de ser “o país do futuro”. Ele vê uma espécie de incessante “canibalismo” através do qual o país não cessa de se invadir em diferentes dimensões, como se elas não fizessem parte, em conjunto, da identidade nacional e fossem estrangeiras entre si. Atenta para o que resulta em pouca capacidade de integração na constituição de uma nação. É como se o Brasil, através dos brasileiros que o governam ou se tornam mais representativos entre os que têm maior influência no funcionamento social, tendesse a se auto devorar ou estabelecer relações de colonização interna entre diferentes setores. Ilustra seu ponto de vista com casos como o do empresário que destrói o meio-ambiente para conseguir ganhar altas somas sem preocupação com as consequências de seus atos. Cita as atitudes de políticos/administradores públicos que, por exemplo, desalojam moradores de um bairro pobre para pô-lo abaixo e construir algo de grande porte e de modernoso mau-gosto, talvez inútil, criando a impressão de arrojo no eleitor e interpretando sua pantomima numa estratégia populista, sem nenhum cuidado humanístico ou verdadeiramente desenvolvimentista. Lembra dos policiais invadindo favelas sem o cuidado em proteger a maioria não envolvida em ações criminosas (na verdade trabalhadores vitimizados pela precariedade do poder público) que ali reside. Por outro lado, menciona os casos de infratores tomando de assalto as praias para fazer “arrastões”, saqueando e apavorando seus frequentadores, sem percepção de que isso contribuirá para ampliar suas más condições de vida. E por por aí vai.
Associa estes eventos, que chama de autofágicos à falta de visão abrangente para os problemas e suas soluções, como o da violência, tão próxima de tantos, alarmante, sem que haja preocupação séria de compreensão de suas engrenagens, com superficialidade e ineficiência nas tentativas de controle.
De modo bastante curioso ele avalia Brasília, incensada (por outros) como protótipo do modernismo arquitetônico. Para Moser é quase o contrário disto. Vê a cidade como opressora de seus habitantes, que não conseguem se locomover com facilidade, pois não há calçadas que permitam às pessoas andarem sem ser através de veículos motorizados, diminuindo a interação entre elas. O indivíduo tentando se adaptar às edificações, ao invés destas serem planejadas para atender suas necessidades. Qualifica a obra de Oscar Niemayer como fruto de uma ideologia totalitarista. Refere o fato dele ser admirador explícito de ditadores, citando mesmo as falas do arquiteto em defesa de Stálin, a despeito das atrocidades por ele cometidas contra os milhões de cidadãos soviéticos durante seu governo.
O autor alude à incompreensão (ou à negligência proposital) do que realmente seriam Direitos Humanos, tão incoerentemente alardeados . Aponta para a situação em que o indivíduo é constantemente prejudicado pelas forças do Estado, que dificilmente estão a serviço do cidadão. Entende a feiura urbana no Brasil não como fruto da pobreza (salienta que o país não é verdadeiramente pobre), mas sim do tipo de mentalidade que se constituiu no seio do povo (certamente prejudicado pelos baixos níveis de educação) que apoia a construção de caríssimos estádios de futebol em detrimento do saneamento básico, imprescindível para a saúde (provavelmente por não ter noção da importância disso).
Destaca “o vácuo moral e intelectual no cerne da elite política”.
Mesmo que possamos discordar de seus pontos de vista, é uma leitura que aguça o pensamento crítico.
Título da Obra: AUTOIMPERIALISMO
Autor: BENJAMIN MOSER
Tradução: EDUARDO HECK DE SÁ
Editora: PLANETA DO BRASIL LTDA

Luis, o livro me surpreendeu exatamente por seus pontos levantados. Embora seja impossível concordar com tudo de Moser, afinal ele mesmo se coloca como um observador crítico e não como um pesquisador essa ideia do “autocanibalismo” brasileiro para mim ilumina o problema da violência no estilo brasileiro. São 60.000 brasileiros exterminados por ano… pelos próprios brasileiros.
José Paulo Fiks
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Obrigado por seu comentário Fiks. Parece-me mesmo urgente que a sociedade discuta a violência, ultrapassando os argumentos que já se tornaram estereotipados e pouco úteis para mudanças necessárias
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Sem dúvida a leitura desse livro vai dar o que falar , vou colocar na minha lista.
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Acho que vale a pena.
Obrigado por comentar
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