CRENÇAS

Não sabemos com exatidão e suficiência como se constituem as boas e más motivações dos seres humanos. É pouco dizer que se trata de um amálgama de natureza e cultura. Há muito a ser especificado, é preciso checar objetivamente as hipóteses construídas. Isto importa não só para tentar compreender os humanos em seus atos já consumados, mas também pela esperança melhor moldar a História em seu porvir e valorizar a vida. Frequentemente nos damos conta de ímpetos competitivos, agressivos e destrutivos, tanto entre indivíduos quanto entre diversos coletivos. Bem mais rara é a de busca autêntica de compreensão, de admissão dos direitos do outro e da aceitação da diversidade, em múltiplos planos da convivência entre humanos. Os indivíduos são geralmente pouco propensos a tolerar o diverso, assim como não são afeitos a questionamentos corajosos sobre o que pensam e fazem. Vêm como ameaça aquilo que não se assemelha ao que são ou àquilo com o que estão familiarizados. Podem atacar com graus variáveis de violência aqueles que se mostram diferentes de algum modo, próximos ou distantes. É comum o apoio em crenças às quais se tenha aderido ou que são engendradas sem nenhum respeito a sua adequação à realidade. Tais crenças são tomadas como verdades mais ou menos incontestáveis, úteis para justificativas. Às forças civilizadoras parece faltar potência para coibir este modo de funcionamento. Pode haver muita brutalidade nas atitudes embasadas em certas crenças, construídas ou assimiladas sem a necessária reflexão crítica. Elas, geralmente funcionam como produtos e produtoras do desesperado esforço para dar sentido ao que se vive, buscar legitimar o que se faz. Talvez um modo de aplacar o medo do vazio primordial quando se procuram diretrizes para o viver que sejam universais, verdadeiras em qualquer contexto. Associam-se a religiões, nacionalidades, ideologias, valores morais e equivalentes. Podem constituir terrenos de confrontos.

Vale dizer que as crenças podem servir também como instrumentos de manipulação e jugo.

Contudo, não se pode ignorar aspectos positivos de parte daquilo em que simplesmente se crê sem maiores análises perscrutadoras. Parte das crenças determinam comportamentos generosos, por exemplo. Ainda assim, é sempre desejável que sejam pensadas com alguma profundidade. Para buscar o melhor e a verdade tão fugidia é imprescindível suportar o contraditório característico da vida; admitir a condenação universal à uma certa ignorância que se move incessantemente; recusar a cristalização de saberes; exercitar e robustecer o pensamento crítico. Há que se combater a rigidez, imobilidade e intolerância. Crer, mas também duvidar e, eventualmente, mudar. Humildemente. Procurar incessantemente conhecimento e justeza, mesmo que seja difícil e desconfortável. Respeitando a realidade.

Ilustração: La Dame à la Licorne Musée Cluny – Paris

 

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