AMOR INSENSATO

Junichiro Tanizaki (Tóquio, 1886 – Kanagawa, 1965) teve seu período mais produtivo no início do século 20. Escreveu sobre diversos temas. A interface cultural do Japão com o Ocidente foi objeto de sua atenção e, especialmente, a valorização das tradições de seu país, incluindo suas peculiaridades estéticas. O amor, o desejo e a falência da racionalidade na vigência da paixão também marcou sua obra.

No romance “Amor Insensato” ele conta a estória de um homem adulto, o engenheiro Joji, que vive confortavelmente devido a recursos materiais e que se apaixona por uma jovem garçonete, Naomi. Ele fica fascinado pela semelhança dela com uma atriz de cinema americana. Passa a pensar nela quase exclusivamente por sua aparência.

Joji aproxima-se da família de Naomi e faz um acordo pelo qual passa a cuidar da moça, levando-a para sua casa para educa-la. No intuito de fazer dela uma mulher refinada e adequada à posição social dele, para a tornar-se seu par, talvez esposa. O fascínio/desejo pelo corpo dela cresce. Ele tenta transforma-la sem a preocupação de enxergar a personalidade da moça. Sabe, em princípio, que ela queria estudar. Isto parece bastar para justificar a proximidade deles. Durante a convivência surgem irremediáveis assimetrias e incompatibilidades. Isto aparece no que eles são e no que pretendem realmente. As incongruências são tão importantes que impedem qualquer forma de comunhão. Eles vão se tornando cada vez mais estranhos um ao outro quanto mais convivem ao invés de ser o contrário. Isso acaba por inviabilizar a relação amorosa que ele fantasiara. Ela se enfada, toma atitudes que o chocam, mas ele cede a tudo sem embates.

Com a ideia inicial de que é senhor na relação entre ambos e que está no comando da realização de um projeto, ele vai aos poucos se apercebendo de sua submissão à jovem mulher. Ela não atende às demandas dele, sem o dizer ou demonstrar abertamente. O desejo e o exercício da sensualidade passam a ser cada vez mais onerosos para ele. Ela desfruta da relativa riqueza dele buscando outros homens e excluindo-o de seu mundo de prazeres. O comportamento cínico da jovem leva-o à decepção. Mesmo assim, ele não é capaz de romper, aceita sua posição na relação e segue diminuído diante dela.

Além desse plano narrativo, muito bem urdido e de cunho mais particular, há uma sofisticada abordagem de problemas causados por modificações que ocorriam na sociedade japonesa do princípio do século XX no sentido de um certo tipo de ocidentalização. A cultura do outro lado do mundo seduzia e assustava, ameaçando a deterioração de uma identidade nacional fincada na estrita tradição milenar, que abrangia múltiplos aspectos da vida. Isso funciona ora como “pano de fundo” ora como tema central do romance. Devido à atração quase irresistível pela estética e valores do Ocidente e o afastamento do modo de proceder característico de seu mundo nativo, o personagem principal enreda-se em teias que o transformam num ser erradio e inseguro quanto a quem seria realmente, o que poderia ter de novo e também o que estaria perdendo. Cenário e trama vão servindo a propósitos comuns.

A construção do texto é muito elegante. Um exemplo de precisão oriental. O que contribui para aumentar o prazer na degustação da leitura.

Título da Obra: AMOR INSENSATO

Autor: JUNICHIRO TANIZAKI

Tradutor: JEFFERSON JOSÉ TEIXEIRA

Editora: COMPANHIA DAS LETRAS

5 comentários

  1. Doutor Luis. Boa Noite! Gostei muito de ler “Amor Insensato”. Um forte abraço. Marisa Helena Coppola.

    Curtir

    1. Olá D. Marisa,
      Fico feliz por ter gostado. Acho que Tanizaki é pouco lido no Brasil e acho isso uma pena, pois gosto muito do que ele escreveu.
      Obrigado por comentar
      Um grande abraço

      Curtir

  2. Boa noite Luís…eu li esse livro por indicação sua. Faz tempo que li e posso te afirmar que é uma história muito boa e gostei muito. O amor por aquela jovem fez a vida do engenheiro mudar completamente.

    Curtir

Deixe um comentário