O CASAMENTO

Nelson Rodrigues (Recife, 1912 – Rio de Janeiro, 1980) é especialmente conhecido como o grande dramaturgo da modernidade do teatro brasileiro. As peças “Vestido de Noiva” e “Álbum de Família” foram marcos importantes e continuam causando impacto mesmo quando encenadas na atualidade. Sua obra ainda pode contribuir para transformar o olhar dos leitores e expectadores com estímulo para a reflexão sobre os subterrâneos das relações interpessoais (com grifo nas familiares) sobre a moral e sobre o sexo. Mas o que ele produziu não se restringiu ao teatro. Atuou como jornalista em campos diversos, incluindo o futebol e escreveu ficção na forma de estórias curtas (algo entre a crônica e o conto). Também romances, que talvez sejam menos citados quando se fala dele.

“O Casamento” foi seu primeiro romance publicado sem o uso de pseudônimo. Como conta Paulo Werneck, em ensaio que serve de posfácio, o livro a ser lançado foi mencionado pela primeira vez por Carlos Lacerda quando anunciou a fundação de uma editora, através da qual pretendia modernizar o mercado editorial brasileiro, empresa de que se ocuparia após ter concluído sua gestão como governador do antigo estado da Guanabara. Entre os títulos de autores nacionais o ponto alto seria esse romance. Muito aguardado por ele e pelos que souberam do projeto, o livro pronto acabou por deixar Lacerda temeroso devido a crueza do texto. Foi considerado “violento demais” para o gosto da época e um risco para as pretensões de Lacerda na carreira política. O lançamento deu-se em 1966 por uma editora de menor porte e, como previsto, conturbou a cena intelectual brasileira. Nelson Rodrigues casou neste livro grande parte de seus temas de eleição, já abordados em peças e outros trabalhos, fazendo de “O Casamento” uma espécie de obra de síntese.

As estórias dos personagens convergem para os pontos que eram caros ao escritor. Entre eles tem muito relevo a indomabilidade do desejo sexual, quase que inevitavelmente associado a perversão na perspectiva do autor a respeito da sociedade e talvez devido ao que ele mesmo sentisse e acreditasse. O sexo seria combustível para as labaredas que consumiam as boas intenções e a integridade de caráter das pessoas. Preconceitos fulguram no enredo e também nele definham, em função da abundância de comportamentos não recomendados aos bons e tão profusamente praticados por eles. Isso compõe um quadro mais amplo que retrata a fragilidade dos valores morais na conduta dos indivíduos e os grotescos jogos de hipocrisia destinados a manter aparências em compasso com o socialmente aceitável. Também vale citar que ele aponta para uma certa indistinção ou fusão entre o supérfluo o fundamental no que pensam as pessoas sobre acontecimentos que dão corpo ao viver.

A família sempre esteve no cerne das observações de Nelson: os vínculos entre marido e mulher e, talvez principalmente, entre pais e filhos. A natureza desconcertante do amor entre os próximos e a insurgência do desejo incestuoso foram grandes motes. A doença, que aparece para revelar a perecibilidade do corpo é quase personagem. E, de modo mais contundente, a morte e as condições em que ceifa o vivente também são notáveis neste romance e em outras obras. Obsessões. A ágil trama de “O Casamento” é construída no período que precede o enlace matrimonial de Glorinha e Teófilo. Há muitas incursões no passado dos protagonistas, num concerto para compor as imagens que tornem claras as concepções do autor sobre eles. A noiva parece ter o pai, Sabino, como verdadeiro objeto de desejo, no que parece estar em sintonia com ele e sobre o noivo paira a suspeita da homossexualidade ocultada. Sabino funciona como o principal agente e referência em torno de quem se desenrola o drama que se converte em tragédia. Entretanto, todos veiculam os temas que desembocam em algum tipo de degradação moral ou sugerem a impossibilidade de construir valores morais que pudessem ter consistência na vida real, para além da idealização que costuma ser a face rasa do que realmente se passa. As forças que regem os destinos são obscenas e a escatologia parece multiplicar-se em citações que lembram o leitor de sua potência nos subterrâneos das vontades e atos. A denúncia, assim como a inscrição da culpa e sua expiação também tomam o lugar de destaque nos desfechos do que cursa nas vidas sempre maculadas pelo que é torpe e comezinho.

Como mostra José Luiz C. D. Tavares em sua bela dissertação de mestrado intitulada “A Medéia do Subúrbio, Escrita Contemporânea e Desamparo Freudiano em Álbum de Família de Nelson Rodrigues”, a ficção rodriguiana tem muito de autoficção. Possivelmente, aqui o termo criado por Serge Doubrovsky inclua aspectos mais obscuros do psiquismo que os frequentemente considerados sob essa denominação. Neste caso não se trata de autobiografia factual sobre o explícito ou concretamente ocorrido. Nelson Rodrigues transforma em ficção o que é real e cortante em sua alma conturbada. Algo que talvez tenha estado sempre presente em seu cotidiano íntimo na forma de afirmações instáveis ou dúvidas nunca resolvidas e dores jamais mitigadas. Parece que em essência tudo o que ele escreve é sua pura verdade. As estórias deixam entrever a história interior, a alma do ficcionista, funcionando como esteio para o que diz.

Uma leitura que conserva o espírito teatral, seduz, arrebata o leitor e, mesmo que hoje não cause o mesmo choque que pode ter causado um dia, ainda pode perturbar espíritos menos tolerantes às turbulências nos voos que passam pelos meandros psíquicos dos indivíduos.

Título da Obra: O CASAMENTO

Autor: NELSON RODRIGUES

Editora: HARPER  COLLINS

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