O LUGAR

Muitos são os modos de falar sobre as pessoas. Buscar conhecê-las através de seus mundos privados, penetrando as dimensões afetivas mais íntimas, é possivelmente o maior desafio para aqueles que tentam. Tomar o que é aparente em seus atos ou ter como referência o meio imediato em que estão inseridas é o recurso talvez predominante pelo qual se tenta a aproximação ou construção de um retrato. Objetividade e subjetividade nunca são olhares puros nessas tarefas. Bons escritores devem revolver-se nessas agruras, quando pretendem ser verdadeiros.

A ganhadora do Prêmio Nobel de 2022 Annie Ernaux (Lillebonne, França, 1940) escreveu “O Lugar” partindo de uma perspectiva “externa” de abordagem para transformar o próprio pai em personagem. Empreende a tarefa motivada pela morte dele, desfecho que serve de ponto de partida e de chegada na narrativa. A autora lança mão de uma modalidade literária denominada “autoficção”, termo atribuído ao escritor e crítico literário francês Serge Doubrovsky para categorizar a ficção de cunho autobiográfico. Até onde é possível Ernaux transporta para o livro personagens reais: fala de seus familiares, dela e do que pode enxergar sobre o universo em que todos existem.

O título diz muito. O destaque é para o ambiente social e o que ele pode determinar, mesmo que o mote declarado seja resgatar a imagem do pai. A vida na zona rural da Normandia e a instalação dos pais num setor pobre da pequena cidade em que a narradora/autora nasceu dão o tom à maneira dela ver o pai/protagonista. A origem, o entorno e as condições socioeconômicas fundem-se na identidade do personagem. Mais do que eventos de grande tragicidade pelos quais ele passou, como as duas grandes guerras da primeira metade do século XX que tanto afetaram os indivíduos e mencionadas quase como elementos fortuitos, importaram para Ernaux a pobreza da vida dos agricultores do lugar naquele tempo, sua escapada para o trabalho operário, o não acesso à escola em tempo hábil para resultar em educação capacitadora para a mobilidade social. Posteriormente ganha robustez a adesão dos pais às concepções de mundo de seus pares (com pouco espaço para diversidades). A família é constituída de pai, mãe e filha. A mãe é quase coadjuvante e a filha um ser em trânsito para a esfera pequeno-burguesa alcançada através da educação formal mais extensa, inacessível aos progenitores. Há um distanciamento entre a narradora e eles, valendo também para os circundantes. A lonjura entre ela e eles, marcante ao longo de toda narrativa, parece ser justificada somente por causas de teor social, dotadas de alguma concretude, que lhe deram um lugar separado e forjado durante sua formação escolar coroada com a profissão de professora, somando-se ao fato de casar-se com homem de origem mais abastada.

O texto é claro, firme. Breve e agradável de ler. Uma expressão decidida do modo de Annie Ernaux ver gente e mundo. Há sensibilidade para aspectos da vida muitas vezes despercebidos por quem os vive, observadores e teorizadores. Inteligente como um tipo de exegese. Todavia, a narradora/autora parece sempre afetivamente extrínseca ao que conta, do que, em princípio, faz parte. Fica a impressão de que também assim ela expõe com sinceridade e coragem algo sobre si mesma.

Título da Obra: O LUGAR

Autora: ANNIE ERNAUX

Tradutora: MARÍLIA GARCIA

Editora: FÓSFORO  

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