VÉSPERA

Há brusquidões no comportamento das pessoas que são muito difíceis de compreender. Desorganizam momentaneamente a inteligibilidade da vida (ou não tão momentaneamente). Parecem brotar de abismos íntimos onde o ser se perde. Nas atuações bruscas podem trafegar vontades que quase ninguém quer ter (vale dizer que há os que não se importam). Elas corrompem as boas aparências e deixam entrever os meandros do indesejável que atemoriza. Eventualmente são explosões do sentimento de raiva gerada por inveja, pelo desamparo e outras injustiças próprias do existir, pela interdição no trânsito em direção aos objetos de desejo, por limites extremos da desesperança e por muitos outros determinantes. Antes disso, do rompante, existem as vivências traumáticas que mesmo evoluindo lentamente escapam ao controle da vontade, danificam projetos e ideais e criam mecanismos estereotipados para o entendimento e a ação no dia a dia da história de cada um. Quando tais comoções frequentam assiduamente os cotidianos acabam por minar as reações como surpresa e indignação, que carregam potencial de mobilização para mudanças necessárias e, não sendo banalizáveis, são incorporadas aos silêncios que devastam o espírito. Costumam anteceder as brusquidões, constituindo aos poucos suas vésperas.

Carla Madeira (Belo Horizonte, 1964) escreveu o romance “Véspera”, cuja trama penetra aquilo que importa nesses processos tão humanos. Engenhosa e profundamente.

Sem recorrer a recursos experimentais de narração ela mostra grande talento para falar com frescor sobre temas literalmente bíblicos, de tão antigos que são nas relações entre indivíduos. Há vigor e autenticidade no que ela diz. Aproxima a poesia da prosa com a precisão elegante de quem não desperdiça palavras e escolhe-as com propósito. Envolve o leitor através do ritmo ajustado à urgência do que vai sendo revelado no decorrer do enredo. Não importa se é possível prever algo a ser dito, pois mesmo que assim seja o texto cria no leitor a necessidade de ir adiante e de ver formulado o que é verdadeiro e drástico no que está sugerido. Lembra-nos do peso daquilo que se tende a calar por medo das consequências da explicitação. Mas Carla Madeira não cede a tentações comezinhas e chega aonde pretende. Impacta ao submeter o brutal ao belo, mostrando refinamento de ourives.  

A estória cursa em dois tempos de extensões diferentes, o do evento brusco e sua intricada véspera. Os capítulos são dispostos estrategicamente. As epígrafes funcionam como uma essência destilada do que está por vir. Tudo produzido através de partes da estória de quatro gerações de uma família mineira. Costumes e tradições têm seu papel, assim como os nomes dos personagens, especialmente no que diz respeito a um par de gêmeos univitelinos chamados pelo pai de Caim e Abel. As expectativas em torno do efeito desses nomes no futuro dos irmãos funcionam como linhas de tensão na teia ficcional. No mito bíblico Caim mata Abel. O temor do prenunciado assim como daquilo que a ele escapa, do imprevisível, arma um jogo sofisticado que aponta para diversas direções interpretativas.

Além do prazer de ler uma estória muito bem contada fica o convite da escritora para ampliar a reflexão sobre o que pode se passar sem a visibilidade imprescindível na interioridade e na exterioridade das relações humanas.

Título da Obra: VÉSPERA

Autora: CARLA MADEIRA

Editora: RECORD   

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