O CORONEL CHABERT

O escritor francês Honoré de Balzac (Tours, 1799 – Paris, 1850) observou com agudeza o comportamento das pessoas no mundo em que viveu. Conseguiu enxergar mais do que peculiaridades dos mecanismos de funcionamento social e individual em seu tempo. Viu aspectos da natureza humana provavelmente universais. Talvez nisso resida a potência de sua obra, no conjunto denominada de A Comédia Humana e composta de quase uma centena de trabalhos completos (vários outros que ficaram inconclusos), entre romances, novelas e contos. Foi um dos fundadores do Realismo na literatura e a influenciou extensamente. Seu modo de ser realista não se restringiu a escrever usando formas mais diretas de linguagem e conteúdos inspirados em vivências objetivas. Ele desconstruiu a idealização. Retratou seus personagens com a ousadia do que se destina a ser verdadeiro.

“O Coronel Chabert” é uma novela na qual o protagonista, após ser gravemente ferido numa batalha durante as guerras napoleônicas e dado como morto, perde a vida que tinha. Não sendo reconhecido como vivo por outros vivos, deixa de estar casado com quem estava e não tem mais acesso a qualquer recurso material. No seu regresso a Paris depara-se com o fato de sua esposa (supostamente viúva) ter se casado com outro homem e recusar-se a reconhecê-lo como seu antigo marido, o que implicava negar-lhe a identidade. Depois de ser auxiliado por um advogado e obter documentos que provavam a veracidade do que afirmava ele tenta aproximação com a dita mulher que ainda amava e torna-se vítima de seus ardis, que desconsideram as obrigações ético/morais ou qualquer tipo de amor, em prol da conservação das vantagens advindas da viuvez de um herói de guerra que fora também um nobre rico. Depois de constatar a vileza dela, mesmo quando declara que se sacrificaria para não a constranger para não lhe causar sofrimento, ele sente-se obrigado a abrir mão irremediavelmente das esperanças que o moviam até então e que se revelam ilusões quanto à solidez do bom caráter das pessoas e de seu compromisso para com valores amplamente propagandeados. Além disso, compreende o quanto é enganosa determinação de promover justiça em âmbito coletivo. O cinismo dos outros o assalta e fere sem que ele conte com armas para lutar nesses campos de batalha. Assim, declara “nojo pela humanidade” e aceita prosseguir anônimo, à margem da sociedade que tanto prezara.

Essa novela foi referência e citação para vários escritores (como Javier Marias em “Berta Isla”). O olhar incisivo do escritor francês inspirou esses autores em mais de um sentido, mas teve muito peso a concepção dos textos ficcionais como instrumentos de análise e crítica para além da estética que se viu no Romantismo, em que Bem e Mal são mais claramente delimitados e guardam distância entre si, onde o conceito de humanismo sugere uma certa prontidão para se estar no terreno do Bem, com a literatura fazendo valer a crença na relativa facilidade de cultivo dessa capacidade. Na ficção realista de Balzac, Bem e Mal têm intimidade e podem revezar-se nos postos que ocupam. A ideia de justeza é apresentada quase como um artifício, uma promessa para seduzir e controlar, um recurso teórico e não um princípio inerente ao homem e aos mecanismos que ele cria para relacionar-se em sociedade. Com Chabert somos obrigados a considerar que a civilidade pode menos do que pretende ou anuncia pretender. Curiosamente, o autor fala em três profissões que se deparariam mais frontalmente com a crueza da malignidade dos indivíduos sobrepujando suas boas facetas: o médico, o padre e o advogado, embora discorra aqui somente sobre o papel do último.

Escrita em 1832, “O Coronel Chabert” preserva vigor e atualidade no que diz de mais essencial, ultrapassando o contexto histórico, sem deixar de grifar que este é muito bem descrito e que há espaço para múltiplos planos de interpretação. Como em outros livros de Balzac, a leitura é sempre envolvente e bem ritmada.

Título da Obra: O CORONEL CHABERT

Autor: HONORÉ DE BALZAC

Tradutores: GOMES DA SILVEIRA E VIDAL DE OLIVEIRA

Editora: GLOBO (BIBLIOTECA AZUL)    

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