TUDO O QUE É

O mundo transforma-se continuamente e nele os seres humanos. Pode parecer relativamente simples analisar as modificações que afetam os indivíduos ao longo de suas vidas, mas isso é um engano. Há muitos determinantes para a impermanência daquilo que, em algum momento, é. Talvez em sua maior parte esses fatores não sejam passíveis de compreensão clara. As engrenagens que movem tudo o que momentaneamente é mantêm ocultos seus motores. Conservar não é uma escolha, nem mesmo uma possibilidade.

O último romance escrito por James Salter (EUA, 1925-2015), “Tudo O Que É”, quando ele já se aproximava dos 90 anos, idade em que morreu, fala sutil e brilhantemente de transitoriedade. No texto, como na vida, ela nunca é apresentada frontalmente. Assim, respeita-se a ilusão de que ela não habita o presente e de que pode ser descartada do futuro. Deixa seu rastro somente no tempo passado, nas estórias/histórias contadas. O protagonista, Philip Bowman, é seguido (nunca de perto o suficiente para surpreendê-lo pensando) através de segmentos de sua trajetória desde a infância até as vizinhanças da velhice. Seus amores são o fio condutor da narrativa, embora outros aspectos não deixem de ter relevância. A expectativa a cada novo apaixonamento, o regozijo ante aparentes vitórias com suas promessas de pertinência e propriedade, depois as rupturas e perdas, com níveis de deliberação e concretude variáveis em cada situação, e ainda múltiplas restaurações são o mote da estória. Produzem um fluxo que se encarna em Bowman e outros personagens. E ao fundo, funcionando mais ou menos como marcações de um coro do teatro grego, são citados acontecimentos e figuras reais que conformam a História do século XX e aparecem em flashes. Nada tem constância, nem muita previsibilidade. Várias reflexões são possíveis com a leitura: sobre o que se alcança nas relações afetivas e o que nunca se tem, mesmo parecendo o contrário, sobre a flutuação de certas características das pessoas, que supostamente dão tom ao seu caráter, sobre o que não pode ensinar a História, entre mais. Enfim, talvez uma sofisticada expressão de realismo seja a marca do livro, sem se ater exclusivamente aos fatos e sim a certos significados criados em sua evolução. Uma lembrança sobre o quanto as aparências podem enganar e frustrar e também de como é possível haver fruição e gozo no que se vive, mesmo que não dure.

Salter, que teve uma produção literária parcimoniosa em sua longa vida, é considerado um dos grandes escritores dos Estados Unidos na contemporaneidade. Além do olhar aguçado para o que tem pouca visibilidade, ele teve a elegância da sutileza em relação ao que realmente importa dizer. A materialidade da trama é somente um veículo. Isso não agrada a todo o tipo de leitor, mas certamente encanta alguns.

Título da Obra: TUDO O QUE É

Autor: JAMES SALTER

Tradutor: JOSÉ RUBENS SIQUEIRA

Editora: COMPANHIA DAS LETRAS  

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