CÃES NEGROS

Há eventos da história do mundo (o que não exclui o âmbito pessoal mais restrito) sobre os quais o esquecimento seria desumano e a recorrência da lembrança implica ameaça intolerável à sensação de segurança propiciada pela ideia de saber o que se faz, sua justeza e seu porquê. Tais ocorrências podem desdizer discursos bem elaborados e otimistas sobre a natureza humana e dos engenhos para controle das coletividades. Tendem a ser profusamente interpretados e acabam perdendo grande parte de sua força primária de impacto.

Interpretações são sempre parciais e frequentemente assumidas como verdades. Nesse sentido, representam elementos espúrios na missão de historiar a vida. Costumam transfigurar-se em crenças, usadas nas construções de identidades pessoais, nas justificativas de sistemas morais, de posições ideológicas e políticas ou de ações em variados contextos. Têm profunda influência nos relacionamentos interpessoais e naquilo que denominamos destino. Eventualmente nutrem-se de um tipo de incontestabilidade. Como outras produções humanas, abrigam o Bem e o Mal em espaços contíguos muito próximos ou até num único lugar, veiculados pela mesma coisa.

O título “Cães Negros” no romance de Ian McEwan diz respeito a uma expressão que tem diferentes conformações metafóricas, embora sempre represente o Mal. O enredo trata, num plano mais proeminente, do relacionamento de um casal que se une no final da Segunda Guerra Mundial, desfaz-se poucos anos depois e os ex-cônjuges continuam servindo de referência um para o outro, num balé estranho ao amor e ao ódio. O genro, que conta a estória, tenta reconstituir o passado dos sogros e as razões que os levaram a se tornarem quase inimigos, apaixonados para sempre. Ambos eram filiados ao partido comunista inglês. Aderiram harmonicamente a preceitos teóricos muito estruturados e rígidos sobre as únicas e reais maneiras de eliminar as injustiças sociais e criar bons futuros para todos. Mas, descompassos dramáticos levam ao fim a parceria que dava impressão de homogeneidade de pensamento. Muito cedo ela se decepcionou com o que viu de objetivo na transposição das teorias para a realidade, deixa de militar politicamente e rejeita com veemência a postura traduzida por “não se faz uma boa omelete sem quebrar ovos”. Identifica o Mal nas boas ilusões de reformas dos mecanismos que governam os povos. Mal e Bem são entendidos por ela como instâncias íntimas e assustadoramente universais. Assim, os “cães negros” impõem-se cruelmente aos programas de reforma social baseados em premissas que cogitam superar ou dominar estas bestas infernais que residem nos seres humanos. Nesse tipo de intento ela enxerga as presas animalescas que rasgarão qualquer sonho. Todavia, ela precisa crer em algo mais otimista. Passa a acreditar na imprescindibilidade de revoluções interiores, mesmo que não possa constituir um modelo claro para isso. Não busca apoio na realidade consensual e nas produções da razão. Atribui ao suprarracional as forças necessárias para controlar o Mal. Refaz-se como crente. Ele, decepcionado bem mais tarde com o partido (a gota d’água foi a invasão da Hungria pela URSS), também se desfilia. Contudo, não abre mão do pragmatismo racional nem da militância política, continua defendendo pontos de vista considerados de esquerda, mas a em outros terrenos. Torna-se um político, age a partir do establishment. Luta ferrenhamente por aquilo em que crê, com pouco espaço para dúvidas e críticas. E nunca deixa de se horrorizar com a diligência etérea da ex-esposa. Ambos seguem funcionando como crentes radicais. Em contraponto. Até o fim.  

A posição do narrador é bastante curiosa. Tendo ficado órfão na infância, ele buscou incessantemente substitutos os pais perdidos entre os de seus  amigos e depois de sua esposa. Ele sente-se intrigado com sistemas intransigentes, especialmente com a brutalidade por eles determinada. Ao visitar as instalações de um campo de concentração na Polônia pergunta-se em que ponto regimes governamentais tão rigorosamente organizados no intuito de alterar modos de viver e alegando buscar a construção de sociedades melhores, começam a ser questionados e ganham novos (e terríveis) sentidos. Quando começam a ruir? Muitas interrogações derivam-se disso, especialmente no que concerne à distância entre ideólogos e cidadãos comuns submetidos a suas ideias. Vêm à baila as monstruosidades impetradas, contra um indivíduo ou milhões, em nome de interpretações da vida, valores e crenças constituídas a partir disso, que somente livram do ônus maior determinadas elites. Ele oscila entre a adesão ao que preconiza a sogra ou o sogro. Empenha-se em descobrir suas motivações e seus “cães negros”. O que os separou e uniu simultaneamente. Com isso articula indagações mais significativas do que possíveis respostas para elas. E mantém-se atento.

Título da Obra: CÃES NEGROS

Autor: IAN McEWAN

Tradutor: DANIEL PELIZZARI

Editora: COMPANHIA DAS LETRAS  

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