COMO POEIRA AO VENTO

Leonardo Padura (Cuba, 1955), como outros bons escritores fazem para criar ficção, alimenta-se de realidade. Num pequeno posfácio de “Como Poeira Ao Vento” ele explicita isso, ao falar do que o nutriu para escrever esse ótimo romance. Vale ressaltar a elegância e engenhosidade do autor ao longo do livro em auxiliar o leitor bem-disposto a abrir caminhos para apreender a noção de complexidade da realidade, que é um dos pontos fortes de sua obra. A presença da História, que transparece na estória, não é afirmada em tom doutrinário e nem é apresentada como uma compreensão isenta de efeitos da refração ou difração sob a óptica da interpretação. Padura testemunha com muita riqueza e convincente sinceridade o que experimentou. E não deixa escapar o entrelaçamento dos elementos particulares em sua estória, que são também história, com aspectos universais das histórias de gente situada em cenários distintos. Sabe apresentar a complexidade do mundo real na multiplicidade de planos que o compõem e que se aproxima das narrativas ficcionais quando relatada. Oferece a oportunidade para aqueles que o leem de aprenderem a desfazer nós que aprisionam o intelecto em compreensões toscamente maniqueístas, empobrecidas por simplificações enganosas sobre os seres humanos e as sociedades que criam.

“Como Poeira Ao Vento”, lançado em 2021, fala sobre a trajetória de um grupo de amigos nascidos em Cuba, no período próximo da revolução de 1959, que alterou o regime político-administrativo e levaria posteriormente Fidel Castro a ser o comandante máximo (talvez único) da ilha, quando foi instaurada uma ditadura rigorosa, abrandada somente em anos mais recentes. Os personagens compartilharam sua formação educacional, ideológica e moral, embora tendo diversidade de origens. Cada um a seu modo destina-se à diáspora após os anos 1990. Após ruir a URSS, que servia de apoio fundamental para a sustentação das engrenagens que mantinham em funcionamento o Estado cubano e com o embargo econômico imposto pelos Estados Unidos, a pobreza aumentou significativamente e as condições de vida tornaram-se quase insuportáveis para a maioria da população. Se antes já havia tentativas de fuga, nesse período elas aumentaram muito. Depois de 2013 as pessoas passaram a poder se exilar sem ter que fugir, mesmo que os trâmites para isso fossem complicados.

A trama bem urdida trata da vida daqueles que se empenharam no estabelecimento de maneiras mais justas e desejáveis de viver sem nunca terem podido realizar a mínimo contento um projeto individual ou coletivo de bem-estar. Pessoas que entregaram-se, consumiram-se na adesão a propostas que não podiam contestar, tiveram o medo como elemento integrante de seus cotidianos, imposto para evitar escapes de adesão às determinações governamentais, obedeceram, convenceram-se, decepcionaram-se, perderam o que tiveram e a esperança em alcançar o que nunca veio. Renunciaram a muito. São personagens com identidades delineadas e que oferecem proximidade ao leitor sem que este possa adentrar profundamente suas intimidades. O autor não se ocupa demais com a construção psicológica de seus protagonistas, mas sim com o protagonismo das dinâmicas sociais em suas vidas. Impactados por algumas mudanças bastante positivas, como o acesso amplo à educação e saúde pública, também o foram pelo “policiamento” e temor de punições por qualquer manifestação de discordância quanto à política ou à ideologia marxista-leninista ou mesmo a suspeita infundada ou acusação disso. Habituaram-se à vigilância por parte dos próximos e às delações que destruíam carreiras ou faziam coisas piores do que isso. Tiveram que se conformar com a manutenção de desigualdades sociais relevantes, privilégios de poucos e precariedade material de muitos e corrupção generalizada (essa já existia desde muito antes da revolução). Por fim, desiludidos, passaram a buscar a reconstrução da vida em outros países, onde eram estrangeiros exilados ou mesmo que não o fossem oficialmente não eram integrados suficientemente às sociedades. A maioria (inclusive de descendentes) continuou sentindo-se cubana e amando sua terra natal, mesmo que não suportando a ideia de voltar a passar o que lá passaram.

Padura não faz panfletagem política e demonstra sensibilidade e farta inteligência, que o põem acima das estereotipias ideológicas. Tem olhos para enxergar essas reduções e também para apontar o que há de mais fundamental nos indivíduos e nas coletividades mirando a consonância ou dissonância com a pretensão de uma existência digna.

Título da Obra: COMO POEIRA AO VENTO

Autor: LEONARDO PADURA

Tradutora: MONICA STAHEL

Editora: BOITEMPO

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