O REI LEAR DA ESTEPE

William Shakespeare (Inglaterra, 1564 – 1616) é um ícone universal da cultura. Suas peças teatrais e poemas penetram quase todas as classes sociais e diferentes tipos de formação cultural nas regiões do planeta. O escritor russo Ivan Turguêniev (Rússia 1818 – França, 1883), um dos “grandes” da literatura russa do século XIX, escreveu um pequeno romance intitulado “O Rei Lear da Estepe”, abertamente inspirado na tragédia shakespeariana “O Rei Lear”.

O enredo é relativamente simples, tratando de um homem da pequena nobreza rural do interior da Rússia que, ao transferir seus bens e seu poder de comando para suas duas filhas, vê-se proscrito de sua antiga propriedade e de todo o seu patrimônio de crenças e afetos. Ele suporta a dor da traição e de muitas privações, mas acaba por impor um castigo contundente à família. Mesmo assim, as duas mulheres, ao invés de serem punidas pelo destino, parecem recompensadas por ele e tornam-se pessoas de poder e prestígio.

Assim como Shakespeare, Turguêniev tem o poder de ir ao âmago das motivações humanas e nunca ignora a dimensão aleatória dos acontecimentos em todas as vidas. Nisso reside a essência trágica, que ambos herdaram da antiguidade, especialmente dos autores de célebres peças gregas, e que aponta para a impossibilidade do ser humano dirigir com liberdade os rumos de sua história. Intenções não moldam a totalidade dos fatos, frequentemente determinam pouquíssimo no que efetivamente se dá. Tais fatos não correspondem a projetos elaborados por seres de razão ou poderes superiores, embora mitos possam ser edificados para justificar e mitigar a falta de domínio e mesmo de sentido compreensível naquilo que constituirá o futuro. Não há ordenação infalível. O que implica uma das maiores fatalidades a atingir a razão e o devir.

O livro também toca na incômoda questão do antissemitismo, que sempre existiu e que no século XIX ganhou formatos e intensidades novos. No caso de Turguêniev não fica claro se ele aderiu ao preconceito que vigia ou se somente o retratou sem transformá-lo em apanágio de vilões, mas sim como algo que caracterizava também os personagens bem dotados de outros valores morais, aqueles com os quais o leitor poderia estar identificado. Nisso também há um elemento de tragédia. A imperfeição ética, que deforma a moral, pode vir daqueles que não deveriam carregar esta mácula, capaz de transformar personagens literários e gente real em seres monstruosos, quando, contraditoriamente, também são capazes de atos louváveis. O antissemitismo e outras modalidades de crenças preconceituosas também estão presentes na obra de William Shakespeare, ocupando o mesmo lugar numa parte da estrutura que constitui a humanidade. Ao ler estes gigantes ou assistir uma peça ou ver um filme cabe pensar criticamente nas possibilidades e impossibilidades que determinam os caminhos de indivíduos e povos. E é fundamental aproveitar a oportunidade de desenvolver a capacidade de superar os estereótipos que acarretam empobrecimento intelectual e afetivo.

Título da Obra: O REI LEAR DA ESTEPE

Autor: IVAN TURGUÊNIEV

Tradutora: JÉSSICA FARJADO

Editora: 34

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