DENTRO DO SEGREDO

“Dentro do Segredo” do português José Luís Peixoto (Galveias, 1974) é um relato de viagem. Em 2012 o escritor aventurou-se a fazer uma incursão no país mais fechado do mundo, a Coreia do Norte, cujo nome oficial é República Popular Democrática da Coreia. Apesar de declarar logo no início do livro que é contra todos os regimes totalitários e ditaduras, sua curiosidade em ver mais de perto (embora, mesmo que estando lá, isso significasse poder ver muito pouco) superou qualquer sentimento de reprovação ou temor.

Em 1945, ao fim da Segunda Guerra Mundial, a Coreia toda deixou de ser colônia japonesa, condição em que estava desde 1910 e foi dividida em dois países, o do norte sob influência da antiga URSS e o do sul dos Estados Unidos da América. Em 1950 os governantes do norte iniciaram uma ofensiva com o objetivo de unificar a Coreia, tornando-a um país único e socialista. Inicialmente conseguiram dominar quase totalmente o sul, até que a ONU entrou na guerra, com liderança dos EUA, para defender o povo atacado e reverteu a situação. Houve um armistício, mas não foi assinado nenhum tratado de paz e, em princípio, formalmente continuam em guerra. Desde a divisão, a Coreia do Norte vem buscando afirmar a “ideologia Juche”, que se traduziria na autossuficiência nacionalista, assim como as políticas “Songun” em que os militares teriam prioridade sobre outras categorias de coreanos.

Peixoto narra uma jornada de tons cinzentos, melancólicos. A paisagem humana é marcada pela obediência irrestrita das pessoas ao que lhes é determinado, o indisfarçável medo de não estar em conformidade com as normas do estado, o desconhecimento quase total sobre o que se passa no restante do mundo e pela desconcertante pobreza. A veneração obrigatória pelos “líderes supremos” (título determinado constitucionalmente e posteriormente alterado para presidente), uma dinastia de ditadores iniciada com Kim il-sung, sucedido por seu filho Kim Jong-il e depois pelo neto Kim Jong-um, parece inundar a vida da população. Os estrangeiros em visita ficam sob marcada vigilância dos guias designados para acompanhá-los em todo o percurso. O autor refere o clima de artificialidade naquilo que lhes é mostrado. A precariedade da população parece extrema em suas dimensões que ultrapassam os aspectos materiais. A cultura nacional direciona todos para a magnanimidade dos líderes. A estes são atribuídas qualidades sobre-humanas, com uma mítica capacidade intelectual sugerindo onisciência. Apesar da propaganda através da utilização de denominações como “democracia” e “equidade de direitos”, ecoam denúncias de infrações muito graves relativas aos direitos humanos, com a possível prática de aprisionamento em campos e de tortura dos insurgentes contra o regime. Mesmo sendo assombrações e estando distantes da possibilidade de testemunho objetivo, incomodam. A visão transmitida pelo escritor faz lembrar o que se divulgou sobre a União Soviética durante o stalinismo. Na passagem pela segunda maior cidade do país, Hamhung, o grupo de ocidentais desperta a curiosidade e hilaridade num grupo de jovens, que possivelmente nunca tinham visto seres humanos com aquelas características. Enfim, não é propriamente um instrumento de propaganda turística. O texto não é da mesma qualidade literária das obras ficcionais de Peixoto, mas a leitura é agradável. E vale dizer que seu estilo não aparenta ranço nem panfletarismo.

Título da Obra: DENTRO DO SEGREDO

Autor: JOSÉ LUÍS PEIXOTO

Editora: COMPANHIA DAS LETRAS

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