IRMÃO DE ALMA

Os seres humanos são capazes de sentir e expressar muita hostilidade por seus semelhantes. Nem sempre conhecem com clareza os motivos. Nas guerras aquele que se torna inimigo a ser combatido pode ser somente um desconhecido tachado como oponente, por ordem alheia à compreensão dos que combatem. Diferentes formas de agressão ao outro também aparecem em contextos que não as guerras. Quase sempre é difícil distinguir a origem mais profunda da agressividade entre pessoas. Muitas vezes ela parece ter uma dimensão externa aos fatos objetivos e inerente à estrutura psíquica primitiva. Todavia, forjam-se justificativas, mesmo que a posteriori. Diversidade quanto a crenças é algo que importa muito nesse campo e pode aparecer de modos variados. Talvez haja premência de validar ideias em torno das quais pessoas delineiam suas imagens, individuais e também coletivas.

“Irmão de Alma” do franco-senegalês David Diop (Paris, 1966) usa noções de fraternidade e o seu oposto, sem denominação precisa, para a construção a trama. São memórias de Alfa Ndyaie. Ele parte do vínculo com seu maior amigo, Mademba Diop, ferido em batalha durante a Primeira Guerra Mundial, a seu lado. O protagonista não consegue abreviar a agonia de seu irmão de alma, matando-o, como ele implorava. Ambos muçulmanos do Senegal, quando o território era colônia da França (com a Capital em Saint Louis e transferida para Dacar após a independência, em 1960).

O início do romance está centrado nas ações de vingança de Alfa pela morte de Mademba. Aí cria-se espaço para reflexões sobre a violência desmedida a que as pessoas estão sujeitas, tanto como como vítimas quanto como perpetradoras. Sem que as duas condições estejam tão distantes quanto a intuição sugere. Para tanto, Alfa tem que livrar-se do medo de pensar. Quando isso acontece suas lembranças vão evidenciando a vagueza de identidade do adversário, transformado em inimigo mortal por comandantes remotos e as ações brutais em nome de crenças alheias assumidas como se fossem próprias, inquestionadas. Mesmo que no anonimato pessoal, estabelecem-se depositários para a manifestação de ódios nascidos em recantos insondáveis dos indivíduos. Ele dá-se conta de que a coragem para matar pode ser o equivalente de um contrário, geminado à covardia. Depois da experiência da barbárie o romance passa a transitar pelas lembranças do amor, filial, fraterno e o carnal. Terreno também repleto de contradições e outras complexidades. O autor tem a sofisticação de não ser rigidamente afirmativo quanto a seus temas e nem lança mão de maniqueísmos ingênuos para distanciar Bem e Mal. Estes parecem cruzar-se num fluir constante e incontrolável que é a vida, traindo as melhores intenções. David Diop engendra uma curiosa forma de lirismo na narrativa, nada suave, mas voltada para sentimentos ternos, fraternos, apesar dos horrores entranhados nas histórias de cada um.

Título da Obra: IRMÃO DE ALMA

Autor: DAVID DIOP

Tradutora: RAQUEL CAMARGO

Editora: NÓS

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