FOGO MORTO

Contar bem uma estória é tarefa que depende de empenho e, para além, é uma forma de arte. Têm peso a espontaneidade e a autenticidade provenientes de vivências biográficas e motivações afetivas dos escritores. José Lins do Rego (Pilar, Paraíba, 1901 – Rio de Janeiro, 1957) reunia estes elementos e soube dar vida a personagens, criando ficções que retrataram o verdadeiro. “Fogo Morto” é considerado seu maior romance. Construído em torno de três personagens principais que enunciam a decadência dos engenhos de cana-de-açucar no Nordeste do Brasil entre a segunda metade do século XIX e início do XX. Mas, fazem muito mais do que relatar com lirismo passagens que são parte da História do País. Eles reproduzem os aspectos inicialmente dramáticos e depois trágicos das difíceis relações dos seres humanos com o mundo em que vivem. Experiências universais e atemporais. A obra trata do indivíduo que não consegue escapar às imposições da realidade, insubmissa a suas vontades. Transforma em discursos variados a percepção da pequenez de cada um diante da enormidade das engrenagens da vida. Um maquinário que transforma intenções pessoais em mecanismos anônimos, emancipados da racionalidade. Os personagens são aparentemente muito distintos entre si, mas acabam por representar partes de uma estrutura maior. Homens com modos de pensar amarrados às mesmas leis. Acreditam poder reger as próprias vidas e seu entorno, lutam por isto. O esforço é vão e eles tombam, assim como seu cenário rui. A norma era o machismo, bem evidente numa sociedade patriarcal em que as mulheres deveriam ser sempre submissas e restringirem-se a uma espécie de servidão aos homens a quem estavam ligadas. Também havia o grande o valor atribuído à cor da pele, quando o escravagismo ainda estava sendo abolido formalmente. Impressiona a importância da posição da família para determinar o lugar social do indivíduo. Ter um sobrenome “respeitável” significava muito numa sociedade oligárquica. As disputas pelo poder eram cruentas e quase sempre voltadas para a defesa de interesses destes “grandes”. Tudo isto em concerto, engendrava crenças sobre legitimidades de privilégios, chocantes à luz da racionalidade e de uma ética que valorize a humanização das sociedades através da equalização de oportunidades para os indivíduos. No livro são descritos modos de pensamento e funcionamento que sempre foram injustos e hoje parecem especialmente absurdos (mesmo que na atualidade do leitor as condições de injustiça possam continuar existindo sob outras roupagens). Importa muito a “naturalização” deste modo de operar, onde há pouco espaço para a reflexão crítica. A inflexibilidade é traduzível como conservadorismo. O autor não faz propriamente uma crítica aberta a tais concepções, registra o desmoronamento de pessoas delas imbuídas. Lembra das (talvez inevitáveis) insolvências a que parecem estar destinados indivíduos e sociedades. Sucessivamente. Incessantemente. Talvez pelo que há de mais humano e desumano nos humanos.

Título da Obra: FOGO MORTO

Autor: JOSÉ LINS DO REGO

Editora: JOSÉ OLYMPIO EDITORA

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