UMA VIDA PEQUENA

Redes de pertinência afetiva podem ser formadas de modos diversos. Talvez refletindo as grandes mudanças nas estruturas sociais e culturais cosmopolitas de um certo Ocidente, em que as famílias consanguíneas perderam o protagonismo na vida dos indivíduos, dando lugar a novas formas de agrupamento. Estes, tornaram-se necessários e (muitas vezes) eficientes no controle da solidão, que tem tanta força para se expandir nas vidas daqueles que rumam para a meia idade. Amigos adquiriram funções menos formais e mais supridoras. Partindo desta perspectiva Hanya Yanagihara (Los Angeles, 1974) criou uma estória para enredar e contundir o leitor. Competentemente. O romance “Uma Vida Pequena” vem criando polêmica entre críticos e outros que nele mergulham. Enreda a ponto de tornar quase imperceptível o tempo que se consome para ler suas quase oitocentas páginas. Contunde ao abordar tão cruamente a imensa crueldade no abuso impetrado a crianças por parte de adultos perversos (aqui sinônimo de psicopatas, num uso do termo mais antigo para o transtorno da personalidade em que as pessoas podem tornar-se monstruosas nas relações com outras). Tratam-se de abusos determinados pela violência física, psicológica e sexual. Tais eventos habitualmente tendem a ser vistos como distantes ou quase como produtos exclusivos de ficção, tamanha a dor que geram e a incapacidade para integra-los às possibilidades humanas. A autora não se furta a aborda-los frontal e exaustivamente. Choca quem se dispõe a segui-la na narrativa. Todavia, ao contrário do que o crítico Daniel Mendelsohn da “New York Review of Books” viu na obra (uma espécie de manipulação sádica do leitor), é possível louvar a coragem da autora em não escamotear questões tão fundamentais para que não se perca de vista a dura verdade que sua trama expõe e que nunca pode ser negligenciada por cada indivíduo de uma sociedade. Ela convoca para um tipo de cuidado que não pode ser terceirizado por e para ninguém. Há nisso uma exigência incômoda. O enredo lança mão de um processo parecido com o ato de desenhar em que os traços que vão revelando o peculiar modo de ser do personagem índice (bastante perturbador) como inescapável consequência dos trágicos eventos de seu passado. É tudo tão impactante que não sobra espaço para se esperar reparação, superação, alternativas. A ideia de resiliência parece um fogo fátuo, não dura. Mesmo que se possa ver algum excesso, especialmente formal, não se pode negar a força dos temas com que Yanagihara ata-nos e arrasta.

Título da Obra: UMA VIDA PEQUENA

Autora: HANYA YANAGIHARA

Tradutor: ROBERTO MUGGIATI

Editora: RECORD

HANYA1

 

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