MARIO VARGAS LLOSA

Entre a infinidade de discursos produzidos sobre o mundo em que se vive há, para acalanto dos que apreciam o bem dizer, aqueles que renovam a confiança no intelecto humano. Importante mencionar o quanto é necessário incluir os difíceis afetos que permeiam a racionalidade. Mario Vargas Llosa (Arequipa, Peru, 1936) além de grande escritor é um intelectual notável em amplo sentido. Teve a juventude marcada por flutuações ou mesmo conturbações com potencial para ameaçar a solidez identitária, fundamental para instrumentalizar o viver. Seus pais separaram-se antes que ele nascesse e voltaram a unir-se muitos anos mais tarde; a primeira infância foi vivida na Bolívia, de onde retornou para a terra natal já crescido; experimentou regimes de exceção, que tornaram-se quase emblema da América Latina num longo período; passou anos vivendo como estrangeiro oriundo do subdesenvolvimento, em países europeus. Jovem, aderiu às ideologias de esquerda, entendidas como única solução para as tantas injustiças que via distribuídas por onde andava. Não temeu afirmar o que pensava e queria. Todavia, não se permitiu abrigar-se definitivamente em posições que pareceram-lhes corretas num determinado tempo. Observou o mundo com olhos atentos e alma fervilhante de vida. Recusou os processos mumificantes, que ao contrário do que muitos creem, têm início nos primeiros engajamentos políticos da juventude. O exercício da crítica vigorosa seguia a aquisição ávida de informações. Prescindiu dos “funcionamentos” religiosos e não entrou para igrejas (que, aliás, na maior parte das vezes não têm essa designação oficial). É um homem que respeita a transformação do mundo e de si mesmo. Cedo compreendeu a violência camuflada nos movimentos que hasteavam bandeiras do Bem, como o grupo terrorista de orientação maoísta “Sendero Luminoso” relativamente popular em meios universitários peruanos nas décadas de 60 e 70, e que implicou ações de extrema barbárie entre populações vulneráveis do interior do País (as quais apregoavam defender). Sem perder a sensibilidade para dar peso à desigualdade de oportunidades entre pessoas de diferentes estratos sociais, opressão de minorias, de maiorias pobres e muitas outras formas de desumanidades que ensombrecem as sociedades, ele passou a buscar outras soluções que não o radicalismo destrutivo. Foi muito corajoso. Teve a hombridade de caminhar com firmeza mesmo estando desacompanhado, afirmando impressões temerárias, quando a maioria dos intelectuais só conseguia vociferar de dentro de grupos garantidores de “legitimidade”. Nunca perdeu a verve humanitária. Também nunca se isentou de se render às evidências da realidade. Desabraçou utopias e passou a evita-las. Já foi candidato à Presidência do Peru e também recebeu o título de Marquês, concedido pelo rei Juan Carlos l da Espanha. Soube preservar o humor, apesar dos horrores tão insistentes para olhos como os dele, que enxergam. Escreveu romances saborosíssimos refletindo seu modo de estar no mundo em momentos diferentes. O conjunto de sua obra vem sendo algo como um filme em que, sem distorções ópticas, pode-se transitar por vibrantes aconteceres históricos e psicológicos. Passeios em sua generosa companhia. Recebeu muitos prêmios, inclusive o Nobel em 2010.  Entre muitos bons livros que publicou vale citar “Conversa no Catedral”, “Tia Júlia e o Escrevinhador”, “Lituma nos Andes”, “Pantaleão e as Visitadoras”, “A Festa do Bode”, “A Cidade e os Cachorros”. Também escreveu para teatro e brilhantes ensaios. Colabora com vários jornais do mundo.

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