O LIVRO DAS EVIDÊNCIAS

Comportamentos são pautados por graus variáveis de determinantes morais. Estes podem estar rigidamente incorporados ao funcionamento das pessoas sem que haja muita reflexão crítica sobre sua validade, legitimidade, adequação contextual, etc; deste modo há o risco de acarretarem dificuldades e danos no convívio interpessoal e grupal, pois não há o necessário exercício ético da reavaliação frequente daquilo que se acredita ser certo ou errado. Por outro lado, há aqueles que preocupam-se com o que pensam e fazem no afã de contribuir para a justeza do mundo e doam parte de sua energia à compreensão e transformação das normas que regem as relações humanas. Numa terceira via há uma parcela dos indivíduos que não possui “reserva de valores” que os caracterizem e conduzam e não se ocupam em sopesar moralmente suas intenções e ações. Parece não haver espaço para este tipo de coisa em seus virtuais acervos íntimos. Tais indivíduos dificilmente reconhecem ou buscam equidade natural quanto a direitos e deveres. Caso o fizessem, seria compulsório considerarem limitações para a satisfação de desejos e necessidades e imperativo tolerar frustrações. A magnitude da capacidade para suportar e tomar como justos tais reveses geralmente é proporcional ao que designamos como força de caráter. Neste bojo alojam-se os sentimentos ligados à civilidade, empatia, solidariedade, honradez, vergonha, apreço à verdade, restrição do egoísmo e da autoindulgência, e mais. O tratamento deste tema não é simples e comporta muita diversidade, mas há algo no que concerne à finalidade de se adquirir e fazer valer um sistema de princípios que parece ser universal, que é o reconhecimento, respeito e valorização do outro, a percepção de que a isonomia e probidade são imprescindíveis para o bom funcionamento social, do qual todos dependem. John Banville (Irlanda, 1945) escreveu um curioso e difícil romance em que parece assumir a missão de transitar pelo interior do pensamento de um desses homens desprovidos de arcabouço moral e insensível a questões que poderiam constitui-lo. Há uma morosidade no texto que talvez reflita as imprecisões que ameaçam a fidedignidade na construção do personagem. Em “O Livro das Evidências” ele acaba por caracterizar o protagonista, Freddie, como alguém que nunca atravessa superfícies para adquirir conhecimento sobre si mesmo ou quem o cerca, mas somente detém-se no irrelevante, fútil, no que se vê no raso. Importa satisfazer desejos muitas vezes constrangedoramente supérfluos e mesquinhos. Salta aos olhos do leitor a precariedade de Freddie. Suas transgressões podem ser desumanas em medida semelhante ao teor de certa animalidade que o move. É inteligente e razoavelmente bem informado, mas o aparelho intelectual está desconectado dos afetos e de tentativas de dar significações mais abrangentes do mundo em que vive. Há deserto em seu ser. Sua identidade não transcende a corruptela. Outros seres também são enxergados inconsistentemente, só têm forma nas imagens mais imediatas e transitórias que ele pode formar, não existem para além disso. Não há discernimento entre Bem e Mal. E o Bem costuma demandar muito trabalho de quem o pretende. Assim, sem busca-lo, resta o Mal. Vale lembrar Hannah Arendt na compreensão de que o Mal é gestado no ventre daquilo que é banal. As evidências que dão corpo ao livro de Banville fazem o papel de provas desta concepção.

Título da Obra: O LIVRO DAS EVIDÊNCIAS

Autor: JOHN BANVILLE

Tradutor: FÁBIO BONILLO

Editora: BIBLIOTECA AZUL

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