A AUSÊNCIA QUE SEREMOS

A morte nem sempre conduz ao silêncio. Pode reverberar através de vozes que recusam o apagamento, a aniquilação, a exclusão de significados. Héctor Abad (Medellín, Colômbia, 1958; o nome completo é Héctor Abad Faciolince) escreveu um livro de memórias em que o pai, que lhe foi tirado num cruel assassinato, é o maior protagonista. Este pai, Héctor Abad Goméz (Jericó, Colômbia, 1921-Medellín, 1987) foi um médico sanitarista e, quase como consequência, um ativista. Seu ativismo foi, num primeiro momento, expressão veemente de seu modo de conceber soluções para problemas graves determinados pela pobreza e desinformação de grande parte da população de seu país, como saneamento básico, hábitos de higiene e vacinação. Depois expandiu-se para declarações de suas ideias sobre o que seria um mundo mais justo. Seus atos acabaram por fundirem-se com as conturbadas manifestações políticas do tempo e lugar em que viveu, muito marcados pela violência de extremistas. Era visto como um “comunista perigoso” ou “inocente útil dos comunistas” por um dos polos, ao considerar inadmissível tanta desigualdade de oportunidades de vida minimamente digna entre os ricos e pobres da Colômbia e, por outro lado, qualificado como “burguês incorrigível” pelo polo oposto, pois opunha-se às ideias de uso da violência e privação de liberdades abertamente defendidos ou embutidos em propostas de aparência mais amena por setores mais radicais das esquerdas. Sua honestidade e temeridade tornou-o alvo do ódio de muitos. Quando a violência cresceu ainda mais, com milícias muito atuantes, Abad pai voltou suas críticas para a inépcia ou más intenções dos governantes, que não promoviam ações efetivas para seu controle. Atuou muitos anos como professor universitário, em movimentos relacionados à universidade e mesmo no corpo diplomático de seu país no México. Quando foi morto era pré-candidato a prefeito de Medellín. O relato do autor vai muito além do homem (nem sempre voluntariamente) político que foi seu pai. Ele oferece um olhar sobre o que era viver na Colômbia da segunda metade do século XX, dando relevo às forças sociais e religiosas que determinavam os aconteceres de lá. Contudo, o livro é principalmente uma declaração de amor ao homem que com tanto afeto e alegria de viver inundou o universo dos familiares. Uma celebração de seu humanitarismo e capacidade de amar aos próximos e não tão próximos. E, no amor mais autêntico há sempre muita poesia, desde o título, que é um fragmento de um soneto de Jorge Luís Borges encontrado no bolso da camisa usada por Abad pai no dia de sua morte. Talvez o texto do escritor colombiano permita uma ousadia de rotação de ângulo no dito de Borges para dizer o quanto pode ser forte a presença do que fomos no que seremos em nossa ausência.

Título da Obra: A AUSÊNCIA  QUE SEREMOS

Autor: HÉCTOR ABAD

Tradutores: RUBIA PRATES GOLDONI E SÉRGIO MOLINA

Editora: COMPANHIA DAS LETRAS

ausência

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