IAIÁ GARCIA

Machado de Assis (Rio de Janeiro, 1839-1908) foi um homem refinado, sutil. Sua obra  revela-o, mais do que esforços de descrição biográfica. Parece que nunca militou por qualquer causa, inclusive pela abolição da escravidão no Brasil, apesar de ser descendente de escravos. José do Patrocínio criticou-o por isto. Todavia, seria sinal de precariedade perceptiva dizer que ele não era sensível a esta e outras questões que tornavam injusta a sociedade em que vivia. Falou com generosidade e sofisticação sobre problemas que afligiam a muitos, com largueza de visão, sem restrições e aprisionamentos. “Iaiá Garcia” vem sendo qualificado como um romance de transição entre as fases romântica e a realistado autor. Porém, é possível, para não dizer obrigatória, a interpretação deste folhetim como um romance nada romântico, formalmente ousado onde não o aparenta tão abertamente. Numa estória de imbróglios amorosos dominados pelas convenções sociais da época podemos vislumbrar as normas que regiam a vida de pessoas de diversos estratos da sociedade e as relações entre elas. Casamentos impedidos e espontaneidade afetiva proscrita. Um enredo tecido pelas vinculações interpessoais dominadas pela adequação ao esperado e pelas aparências que poderiam produzir diante da coletividade. Alude-se às consequências (talvez trágicas, mas também patéticas) do modo como eram tratadas as iniquidades. A jovem Iaiá não é a real protagonista da obra que leva seu nome. O que importa são as camadas de sentidos nas interações entre os atores daquele microcosmo. Personagens que podem ser vistos como embaixadores do gênero, da raça, da posição ético/moral e dos “lugares  sociais” moldados com rigidez, numa espécie de maquete da sociedade carioca da segunda metade do século XIX. Estão representados os papeis que cabiam às mulheres e os que não cabiam, mas mesmo assim eram delas. É contado algo da diversidade (tão negligenciada por militâncias, especialmente as atuais) quanto ao relacionamento entre afrodescendentes e os supostos caucasianos. Há uma exposição sintética das engrenagens que faziam funcionar os indivíduos quanto a assunção e manejo de valores em voga e o trânsito na sociedade através do enriquecimento, sucesso profissional ou matrimônio.  Há amores e ódios, como sempre. Entretanto, estes transcendem os namoros, casamentos, viuvezes e solidões para revelar também a dimensão psicológica das figuras deste universo. Evidenciam-se os usos de recursos adaptativos ou a falta deles. E, mais fortemente trata-se da errância humana para afirmar autonomia,  insubmissão, dignidade, força, propriedade de sentimentos e atitudes, assim como da impossibilidade de sufocar motivações mais mesquinhas, que não cabem em imagens idealizadas. Nisto talvez esteja a essência das Iaiás. Garcia e com muitos outros sobrenomes; mulheres ou homens; negros, brancos ou de outras cores que sejam usadas para qualificação de alguém. Tudo sempre em transição. Sem romantismo.

Título da Obra: IÁ IÁ GARCIA (EM TODOS OS ROMANCES E CONTOS CONSAGRADOS DE MACHADO DE ASSIS)

Autor: MACHADO DE ASSIS

Editora: NOVA FRONTEIRA

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