GERTRUDES E CLÁUDIO

A sensualidade pode carrear um tipo de liberdade. As paixões expressas também. Todavia, aquilo de que se desfruta no apaixonamento não deve ser apresentado em estado cru. É preciso elaboração, disfarce, para parecer algo que, velado, prometa o que é preciso. John Updike (EUA, 1932 – 2009) muitas vezes falou sobre a entrega dos seres humanos às intensidades perigosas, em contraponto com a modorra dos cotidianos reduzidos à conservação de costumes e anuência às exigências sociais. Coisas que pasteurizam premências mais vibrantes e ameaçadoras (o que é chamado de adultério toca estas geometrias). Em “Gertrudes e Cláudio” o escritor dedica-se à construção de um passado para os pais e o tio do príncipe Hamlet. Antes, na obra “Hamlet” de William Shakespeare (Inglaterra, 1564-1616), Gertrudes e Cláudio foram tomados como assassinos do rei e usurpadores do trono. O autor norte-americano bebeu nas fontes que talvez também tenham hidratado o dramaturgo inglês ao escrever sua célebre peça: as lendas medievais dinamarquesas. Sorveram, porém, elementos distintos. Updike articula questões diversas daquelas que Shakespeare elegeu. Além de aludir aos enganos das aparências e relativiza-las, inclusive usando nomes próprios variados para os mesmos personagens (como nas versões da lenda) em cada uma das três partes que compõem o romance, ele dá protagonismo ao papel da feminilidade, num mundo onde esta era (é?) tida como coadjuvante. Gertrudes (Gerutha, Geruthe) tece competentemente a parte que lhe cabe da trama. De certo modo, domina os homens da cena. Eles gritam, manifestam fúrias, ela não. Gertrudes, mulher, é a representação do que há de vivo nas vidas que se leva. Mas que flui em silêncio. Conduz, sem que disso se saiba. A marca de uma certa força da natureza. E de uma “sobrenatureza”. O poder e o desejo deixam de ser encarnados tão vivamente nas dúvidas futuras do príncipe shakesperiano. Quando Hamlet surge, aquilo que se ocupa  de elucidar, o possível crime que pretende desnudar para vingar a transgressão quanto ao lugar paterno (e só o lugar) na peça de Shakespeare, torna-se, no texto de Updike, matéria de camuflagem daquilo que aflige o homem e, inominável, busca um figurino (talhado para adolescentes) que cubra a instabilidade dos significados guardados no passado ou vislumbrados no futuro. Para Updike, ser ou não ser não é exatamente a questão.

Título da Obra: GERTRUDE E CLÁUDIO

Autor: JOHN UPDIKE

Tradutor: PAULO HENRIQUES BRITTO

Editora: COMPANHIA DAS LETRAS

gertrudes

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