MEMÓRIAS DO ABADE DE CHOISY VESTIDO DE MULHER

Os pares do aristocrata François Timoléon de Choisy (Paris, 1644-1724) fizeram dele um homem da Igreja, mas ele fez muito mais consigo mesmo durante sua longa vida.

Nasceu na corte e foi vestido como menina por sua mãe até a adolescência, o que não era incomum na época. Havia o intuito de torna-lo o amigo mais próximo de um irmão de Luís XIV (que foi criado como menina supostamente para evitar que disputasse o poder com o rei absolutista). Para além do hábito, François aprendeu a extrair prazer dos jogos, tanto de papeis de gênero quanto dos de azar. E também do sexo, especialmente com mulheres. Além disso foi prolífico na atividade intelectual, como escritor e decano da Academia Francesa. A maior parte de seus livros versavam sobre História, inclusive uma volumosa “História da Igreja”.

“Memórias do Abade de Choisy Vestido de Mulher”, escrito quando ele já era idoso, foi publicado postumamente. Aqui ele relata os períodos em que o trajar-se e ser tratado como mulher e eram importantes em seu universo de seus prazeres (talvez necessidades). Apresentou-se como madame de Sancy e também como a condessa de Barres em períodos e lugares distintos. Pelo relato podemos depreender que seu gozo maior provinha da apreciação de sua imagem como mulher (pelo que ele mesmo via num espelho e pelo que os outros diziam). Vibrava com as sensações experimentadas ao usar roupas e adereços femininos, além da galanteria que provocava. Todavia, em nenhum momento das memórias ele afirma que se sentia uma mulher ou que ser reconhecido definitivamente como tal. Ele tinha consciência de que as pessoas que o admiravam sabiam que sob as ricas vestes femininas havia um homem. Gostava também disto, numa espécie de dupla identidade ou uma identidade que abarcasse os dois gêneros. Parece que tinha elevada autoestima.

Variantes de identidade de gênero são cada vez mais registradas na modernidade. O modo como são descritas promovem controvérsias. São plurais e desafiam as classificações. O abade deu testemunho da diversidade dentro do diverso. Não parece que tenha sido uma mulher transexual ou, dito de outro modo, que tenha tido incongruência de gênero (quem é designado como pertencente a um gênero, como norma compatível com a anatomia ao nascimento, mas sente-se como alguém de outro gênero, tem desconforto com as características sexuais primárias e secundárias de seu sexo biológico/anatômico e necessita viver e ser reconhecido de acordo com o gênero que sente ser o seu), também não parece ter sido caracteristicamente uma travesti (quem é designado como sendo de um determinado gênero, sente-se predominantemente como alguém do gênero oposto, transforma alguns partes da anatomia, mas conserva e valoriza elementos do gênero original em sua identidade). Ele talvez tenha sido alguém que hoje poderia ser considerado um homem “cross-dresser” (nasce homem, não tem desconforto com características sexuais primárias ou secundárias de seu sexo biológico, mas tem grande prazer em vestir-se e desempenhar temporariamente o papel de gênero feminino em determinadas situações). Neste pequeno livro podemos vislumbrar os sentidos de feminilidade e de masculinidade no final do século dezessete e também a possibilidade de um tipo de fluidez que os papeis de gênero podiam ter, pelo menos entre a nobreza, sem implicar estigmatização. Difícil dizer se se trata de um modo muito pessoal e peculiar de alguém experimentar com aventura e exotismo as diversidades na identidade ou se realmente era algo mais comum e próprio de um segmento da sociedade francesa naquele tempo. Além do quadro que retrata um modo menos usual e conhecido de busca do prazer, fica o sabor da leitura de um texto dotado da autenticidade de quem teve coragem, ousadia e, possivelmente, necessidade de bem falar de si mesmo (lembrando a importância da posição da palavra “bem” nessa frase).

Título da Obra: MEMÓRIAS DO ABADE DE CHOISY VESTIDO DE MULHER

Autor: FRANÇOIS TIMOLÉON DE CHOISY

Tradução: LEONARDO FROES

Editora: ROCCO

choisy

The peers of the aristocrat François Timoléon de Choisy (Paris, 1644–1724) made him a man of the Church, but throughout his long life he made much more of himself.

Born at court, he was dressed as a girl by his mother until adolescence, which was not uncommon at the time. The intention was to make him the closest companion of one of Louis XIV’s brothers (who was himself raised as a girl, supposedly to prevent him from challenging the absolutist king’s power). Beyond habit, François learned to derive pleasure from games—both those of gender roles and those of chance. He also found pleasure in sex, especially with women. In addition, he was prolific in intellectual activity, as a writer and dean of the French Academy. Most of his books dealt with History, including a voluminous History of the Church.

Memoirs of the Abbé de Choisy Dressed as a Woman, written when he was already elderly, was published posthumously. In it, he recounts the periods in which dressing as and being treated as a woman were central to his universe of pleasures (perhaps necessities). He presented himself as Madame de Sancy and also as the Countess of Barres in different periods and places. From his account, we may infer that his greatest enjoyment came from the appreciation of his image as a woman—both what he himself saw in the mirror and what others said of him. He delighted in the sensations experienced when wearing women’s clothing and accessories, as well as in the gallantry he inspired. Yet at no point in the memoirs does he claim to have felt himself to be a woman or to have wished to be definitively recognized as such. He was aware that those who admired him knew that beneath the rich feminine garments there was a man. He enjoyed this as well, in a kind of double identity, or an identity encompassing both genders. He seems to have possessed high self-esteem.

Variants of gender identity are increasingly documented in modernity. The ways in which they are described give rise to controversy. They are plural and challenge classification. The abbé bore witness to diversity within diversity. He does not appear to have been a transsexual woman—or, put differently, to have experienced gender incongruence (a condition in which a person designated as belonging to a given gender, in normative accordance with anatomy at birth, feels themselves to be of another gender, experiences discomfort with the primary and secondary sexual characteristics of their biological/anatomical sex, and needs to live and be recognized according to the gender they feel themselves to be). Nor does he seem characteristically to have been a transvestite (someone designated as belonging to a certain gender, who predominantly feels themselves to be of the opposite gender, modifies certain aspects of their anatomy, but retains and values elements of the original gender in their identity). He may have been someone who today would be considered a “cross-dresser” (a person born male, who does not experience discomfort with the primary or secondary sexual characteristics of their biological sex, but takes great pleasure in dressing and temporarily performing the female gender role in certain situations).

In this small book we can glimpse the meanings of femininity and masculinity at the end of the seventeenth century, as well as the possibility of a type of fluidity that gender roles could assume—at least among the nobility—without implying stigmatization. It is difficult to say whether this represents a highly personal and peculiar way for an individual to experience diversity through adventure and exoticism, or whether it was in fact something more common and characteristic of a segment of French society at the time. Beyond the portrait it offers of a less usual and lesser-known mode of pursuing pleasure, what remains is the pleasure of reading a text endowed with the authenticity of someone who had the courage, audacity, and possibly the necessity to speak well of himself (bearing in mind the importance of the placement of the word “well” in that phrase).

Title: Memoirs of the Abbé de Choisy Dressed as a Woman
Author: François Timoléon de Choisy
Translation: Leonardo Fróes
Publisher: Rocco

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