ADUA

Encontrar um lugar para existir sempre foi tarefa de quem vive. E, cabem muitos sentidos nesta frase. Migrações representam parte disto. Abrigos seguros costumam ser transitórios, tanto quando os encontramos na geografia de uma casa ou país como quando eles significam o acolhimento, solidariedade e amor de outros seres humanos. A aventura destes movimentos em busca de lugar comporta esperança, expectativa, temor, trauma e transformação. Grande é a imprevisibilidade. A instabilidade, tão própria da vida, desnuda-se mais indecorosamente. Igiaba Scego (Roma, 1974) é uma escritora de ascendência somali que faz destes temas substrato para sua prosa. A Somália, situada no “Chifre da África” oriental parece expelir compulsivamente seus filhos para outras partes do planeta. Talvez haja muitas razões para isto, mas a pobreza e a violência inter-humana têm o destaque. Mesmo sendo um dos países em que há maior homogeneidade étnica e religiosa da África, são comuns guerras sangrentas entre seus habitantes. A religião islâmica é seguida pela quase totalidade da população, ali foi instalada pouco depois de sua fundação no seio da Arábia. A ablação clitoriana é uma prática antiga e quase inescapável para as meninas. O romance “Adua” abre uma janela para o que se passa com os imigrantes desse país, dessa região africana. Neste caso os que foram para a Itália, que já colonizou parte da Somália. As estórias da protagonista e seu pai passam-se em diferentes momentos históricos: a primeira metade do século passado, os anos 70 e a atualidade. Movimentos semelhantes em cenários temporais distintos. Sofrimentos compatíveis. Ela alude às polissemias contidas nas denominações Europa e África. Articulações premeditadas ou acidentais entre estes mundos constroem os destinos de seus povos, (des)unidos à revelia das livres escolhas. Diversidade transforma-se rapidamente em adversidade. Preto e branco, que não são cores reais de pessoas, iludem truculentamente. Com horror às diferenças as pessoas confrontam-se, destroem-se. Harmonizações são raras ou custam muito esforço. Oportunidades perdem-se. A pobreza humana transparece para além das carências materiais. Revela sua face mais trágica, onde o homem míngua, “desflorece”, no desperdício daquilo que no fim equivale à dignidade, à ordenação dos sentimentos, à preservação da vida. Os migrantes lutam para atravessar as frestas e serem menos pobres, para não submergirem nas crueldades que são tão disformes que muitos de nós não conseguimos crer que sejam reais. Alguns conseguem. Ao voltar nosso olhar para isto Scego homenageia seus antepassados e faz-nos refletir sobre os lugares que podemos ocupar no mundo e que o mundo pode ocupar em nós.

Título da Obra: ADUA

Autora: IGIABA SCEGO

Tradutora: FRANCESCA CRICELLI

Editora: NOS

scego

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