O AMOR DE MÍTIA

Paixões nem sempre são convertidas em amor. Podem ter destinos menos positivos. Quando intensas demais elas costumam restringir o campo de visão, derreter a razão e comprimir a noção de alteridade. A vida do apaixonado torna-se dolorosamente monocromática. Talvez vibrantemente vermelha, como sugere a tradição. Felizmente (na maior parte das vezes), o apaixonamento tende a findar rapidamente. Dura o suficiente para despertar tormentas, mas não para concretizar seus potenciais mais destrutivos. Sobram mágoas transitórias que caem no esquecimento ou são lembradas como experiências patéticas ou com mais sorte e talento, passam a ser doces memórias.

Em “O Amor de Mítia”, o russo ganhador do Prêmio Nobel Ivan Búnin (Vorônej, 1870 – Paris, 1953) trata do desenrolar da paixão de um jovem por aquela que poderia se tornar seu amor. Impressiona a sensibilidade do autor para descrever, na oscilação entre drama e tragédia, o evoluir desse afeto que acomete um ser ainda desarmado, incapaz de proteger-se de si mesmo. O cenário em que é narrada a estória alude à profusão de promessas primaveris que o mundo vai atirando ao personagem, sem que este as possa reconhecer devidamente e regozijar-se. Tudo cai no breu, exceto a imagem feminina encarnada na paixão. A beleza do campo no interior da Rússia é descrita como algo distante, com a nostalgia de um exilado. E exilados foram personagem e autor. Búnin imigrou definitivamente para a França por não aceitar as mudanças ocorridas seu país natal após 1917 e Mítia fugiu do caminho que o levaria a desabrochar num ser forte, resiliente e capaz de amar com maturidade. As desilusões tornaram-se desfechos incontornáveis e passaram a dar o tom à ideia de futuro. Paixões que não toleraram as frustrações e descartaram os coloridos mais discretos do amor realizado por não tolerarem as restrições impostas pela realidade. Sobrou ressentimento e amargura. O romance faz lembrar que o amor é uma conquista. Nem sempre fácil. E que exige empenho.

Título da Obra: O AMOR DE MÍTIA

Autor: IVAN BÚNIN

Tradutor: BORIS SCHNAIDERMAN

Editora: 34

mitia

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