CARAVAGGIO

Obras de arte podem ser instrumentos muito impactantes e transformadores. São poderosos agentes na transmissão de informações, no potencial de produzir reflexões e na reformulação de paradigmas. Simon Schama (Reino Unido, 1945) é um erudito que tem olhar aguçado para o papel revelador da arte. Para além do senso comum. Em seus ensaios no livro “O Poder da Arte” analisa alguns artistas nos meios em que viveram e a sobrevivência do que produziram. “Caravaggio” (cujo nome era Michelangelo Merisi, nascido em 1571 em Caravaggio e falecido em 1610 em Porto Ecole) é um de seus temas. Personalidade turbulenta, caracterizada por tornar-se receptáculo de adjetivação oposta, dependo do ângulo pelo qual é apreciado, revolucionou a arte com o que pintou. Num tempo em que os artistas trabalhavam basicamente sob os auspícios e quase jugo da Igreja, subverteu os padrões de representação das cenas bíblicas. Ofereceu a visão do sagrado fora do pensamento místico. Sacralizou a carne, o cru, a realidade. Fez coincidir o mito com o humano. Dissolveu a idealização nas ruas em que transitou. Recusou qualquer mitigação da violência contida no homem. Transgrediu para enxergar, criar e fazer ver, e nisso, para dar vazão ao que tinha de mais destrutivo. Queria o reconhecimento sem prescindir do que era e via. Quando desconsiderado ou criticado a vingança bruta era incontornável. Foi detido em inúmeras ocasiões. Matou e tentaram mata-lo. Abrigado repetidamente pelos poderosos que queriam preservar seu trabalho, não pode conter seus ímpetos de intolerância e agressividade e em consequência disso viveu na instabilidade, fugitivo, muitas vezes como criminoso. Talvez não lhe faltasse percepção do que era, nem do que o mundo era. E, possivelmente, por mais que tenha sofrido não quis ou não pode mudar nada do que entendia como a essência de seu universo. Sua obra o fez. Com e sem ele. Retratou em telas o que tomou por verdadeiro. Fielmente. Com simplicidade e alta sofisticação. Desprezou a decoração para tratar do trágico. Não usou a luz no intuito de eliminar as trevas, mas para que não desaparecessem. A sujeira não foi removida. Menos ainda a dor. A beleza que criou transcende a senso-percepção. Caravaggio exige que seu observador dispa-se para ver o que ele mostra quando é olhado. A materialidade da imagem é veículo para o pensamento e a vibração do afeto. Aí está sua força. Impondo-se ao tempo. Nunca renunciou a isto. Nunca transigiu. Morreu também por isto e tornou-se imortal, com isto.

Título da Obra: O PODER DA ARTE, CARAVAGGIO é um dos ensaios compõem a obra

Autor: SIMON SCHAMA

Tradução: HIDEGARD FEIST

Editora: COMPANHIA DAS LETRAS

ARTE

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