A FERA NA SELVA

Henry James (Nova York, 1843-Londres, 1916) traduziu em sua obra o refinamento de sua visão de mundo. Não escreveu para entreter. Tentou enxergar mais, através do que produziu. E também quis despertar no leitor o desejo de voltar-se para além dos estereótipos e da potencial vulgaridade no senso comum. Procurou explorar os mecanismos de formação de sentidos ligados às ações humanas, os propósitos no viver. É possível entrever em seus textos a percepção do vazio que identificou nas normas de conduta social, na missão pré-concebida para o homem de seu tempo e em tudo aquilo que era tomado como universal, mas que distava da autenticidade experimentada no singular. Mais do que tramas exuberantes, seus livros oferecem a oportunidade de compartilhar suas questões e, sobretudo, de refletir criticamente.  Foi tão elegante que conservou sua biografia nos limites da intimidade. Pouco podemos saber sobre sua vida pessoal (embora muito se tenha falado sobre ela). Parece coerente com alguém que deplorou a mitificação. “A Fera na Selva” é uma novela bastante ilustrativa de seu modo de pensar sobre o que considerava relevante. Pode ser lida como um trabalho que trata do temor humano diante do porvir, daquilo que pode surgir da densa e impenetrável selva do futuro de cada um. Todavia, não se trata do temor comum que a quase todos acomete. Importa que como consequência do que teme, o indivíduo reduza à insignificância sua capacidade de ação e de afirmação do que é, no que faz. Que torne sua vida amorfa, asséptica insossa. Que se esquive sistematicamente das paixões e das crenças sazonais. Que viva mais vazio do que seria inevitável. Acovardado, dominado pelo anseio de uma segurança impossível. Inerte em relação a quase tudo que, numa visão um tanto fenomenológica, pode ligar o ente ao ser. Que sucumba sem luta, aterrorizado pelo horror ao inominável (que só em parte pode coincidir com a morte corpórea e que limita qualquer realização de satisfação e de artifício para a ingênua busca de plenitude). Que delegue a outro a responsabilidade por protege-lo da dor da falta experimentada no gozo.  E que se sirva desse outro instrumentalizando-o, desnaturando-o, desincumbindo-se de com ele comungar, quando dele espera tanto. A selva se regenera infinitamente. A fera revela-se cruel e devoradora na renúncia às intensidades da vida.

Título da Obra: A FERA NA SELVA

Autor: HENRY JAMES

Tradutor: FERNANDO SABINO

Editora:ROCCOFera

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