THOMAS BERNHARD

Thomas Bernhard foi fiel à conturbação de seus sentimentos para com o mundo. Ao invés de tentar mitigar as convulsões emocionais com soluções conciliadoras, parece ter se preocupado mais em dar-lhes expressão, através de sua obra literária. Nascido em Heerlen, Holanda, em 1931, cresceu entre as tragédias que produziram a II Guerra Mundial e viveu marcado pelas consequências desta. A família e a escola já foram cenários exemplares neste sentido. Era filho ilegítimo, ficou órfão no final da adolescência e sua educação foi orientada em grande parte pelo avô materno. Vítima de tuberculose, quando esta ainda era quase uma sentença de morte, viveu também na relação com o próprio corpo o sentimento de aniquilação e possivelmente de impotência. Parecia guardar muito ressentimento. Talvez raiva. Olhava para o mundo com ferocidade crítica. Sua relação com o país de sua nacionalidade, a Áustria, também não foi dominada pela complacência. Odiou-a em muitos momentos. Sua obra tem um tipo de sofisticação incomum, quando ao atacar todas os recursos usuais que buscam estabelecer solidez na coerência, abrandar as agruras da vida e prometer o benévolo no humano, cria espaço para que novas estruturas sejam erigidas. Todavia, ele não propõe direções para eventuais mudanças. Também não descreve ou sugere modelos para o bem viver. Demole. Limpa. Articula a denúncia do abominável,  do hipócrita, no comportamento individual e do injusto nos arranjos sociais. Há um desprezo pelos esforços para significar a vida através das aparências simplórias e espúrias. Em pelo menos um de seus livros (“Extinção”) ele lança mão da repetição (na tentativa de encontrar verdade) como recurso formal. É possível que isto reflita a escassez de esperança que Bernhard tinha nas transformações duradouras que fizessem do ser humano um ente mais ético, delicado, solidário e menos destrutivo. Soluções não são visíveis a partir do que ele tem para dizer. O leitor que se aventure. A ele, escritor, cabe lembrar que haverá alguém disposto a combater artifícios e falácias. É como se o homem estivesse condenado a retornar à sua posição “original”, em que uma identidade foi cristalizada. Nela, valores e ações efetivas funcionam como grilhões de uma má racionalidade, que tendem a impedir a renovação. Sua produção literária, principalmente com romances e peças teatrais, parece ter sido um dos poucos modos em que afirmou a vida através da construção. Sem garantias de elaboração, mas de resultado bastante poderoso. Pouco foi divulgado sobre sua história privada.  Morreu em Gmunden, Austria, em 1989, com apenas 58 anos. Entre seus romances publicados no Brasil, temos “Extinção”, “O Náufrago”, “Origem”, “Perturbação”, “Árvores Abatidas” e “O Sobrinho de Wittgenstein”. Abaixo, poster de William Dallwitz retratando o escritor.bern1

Anúncios

2 comentários

    1. Olá querida amiga,
      O que mais me impressionou foi “Extinção”, mas acho que “O Náufrago” é um bom livro para entrar em contato com Bernhard. A música teve muita importância na vida dele. Este livro fala do impacto da arte na vida. Quase como um dos elementos de desconstrução que o autor usa como instrumento para desmontar formas de pensar e experimentar o mundo. O pianista Glenn Gould com as “Variações Goldberg” são a referência condutora.
      Obrigado por comentar aqui
      Um beijo

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s