JOGO DE CENA EM BOLZANO

“Nunca é fácil amar”. Esta frase curta e intensa sintetiza parte importante do que propõe Sándor Márai (Kassa, Hungria, 1900 – San Diego, EUA, 1989) no romance “Jogo de Cena em Bolzano”. Romper superficialidades quando se fala sobre amor exige força, coragem e habilidade para o pensamento complexo. O amor não se presta a definições inequívocas. Quando abordado pelo intelecto multiplica-se em infinitas singularidades. Talvez nunca seja algo imediato tanto como sentimento quanto matéria para reflexão. Para perceber, admitir ou experimentar as diversidades deste campo das vivências humanas e o que nele tem consistência há que se sobreviver a assaltos, ultrapassar a aventura passional e ceder à imposição da inominável falta, que impede o indivíduo de ser completo e arrancar-se de sua solidão constitucional. A frustração é frequentemente senhora nos terrenos onde se tenta cultivar o amor. Insiste em não abandonar a cena. O fato da doçura não ser apanágio obrigatório do amor tende a ser desprezado. Possivelmente é até qualidade um tanto escassa em grande parte das situações em que o amor é tomado como protagonista. Entre todos os afetos que podem durar, ele é o mais exigente para com o ser humano. E, quando persiste, afirma-se como algo “tão longo e tão curto quanto a vida inteira”.

Márai é capaz de promover grandes mergulhos com refinamento e a delicadeza necessária para tratar de temas desafiadores. Produziu com generosidade belos romances que refletiram sua busca por compreensão sobre a afetividade dos humanos. Este romance é harmônico com o conjunto de sua obra. Perspicaz e eficiente em seus esforços, reduziu ao mínimo inescapável os engodos que costumam estofar os discursos sobre o sentir e agir nos jogos suposta ou verdadeiramente amorosos. Foi capaz de remover máscaras e rasgar preconceitos, sem fazer muito barulho. Escreveu com elegância, mesmo quando não poupou do desconcerto nem personagens nem leitores (feitos da mesma matéria). Usou bem a palavra. Respeitou-a. Amou-a. Sobretudo, não a temeu.

Giácomo Casanova (Veneza, 1725 – Duchcov, Bohemia, 1798) nômade nas relações amorosas, sequioso, amante da inconstância e imprevisibilidade, provisório nos vínculos que estabeleceu, usuário do outro, ilusionista consciente, fugitivo da verdade, nasceu para ser personagem de Márai. Ao menos neste livro. O autor não pretendeu biografa-lo factualmente, mas recria-lo para que ideias sobre amor, paixão, avidez pela energia da vida, egoísmo, generosidade, aspiração à liberdade, covardia e mesquinhez, emaranhadas na amplidão da economia dos afetos, pudessem ser questionadas ou afirmadas, tornarem-se objeto de exame. Sem simplificações e também sem adornos. Casanova viveu no século XVlll, quando floresceu o estilo Rococó na arte. Este, espelhava um modo de vida de parte da população europeia, especialmente no que se referia às interações sociais. Alguns interpretam-no como uma reação à carga dramática do Barroco. A capa escolhida pela editora traz a reprodução de uma pintura, “O Balanço”, de J. H. Fragonard, um expoente do estilo. Sándor Márai parece ter extraído do rococó a modernidade. Por incrível que pareça.

Título da Obra: JOGO DE CENA EM BOLZANO

Autor: SÁNDOR MÁRAI

Tradutora: EDITH ELEK

Editora: COMPANHIA DAS LETRAS

bolzano

 

2 comentários

  1. El escritor húngaro fue un autor de éxito. Aunque en España sus obras sólo se han conocido desde la publicación de El último encuentro, Márai fue un intelectual burgués y humanista que abandonó su país en 1948, huyendo del comunismo, para instalarse en Estados Unidos donde se suicidó
    Sus novelas El último encuentro, La herencia de Eszter, Divorcio en Buda, El amante de Bolzano y La mujer justa, así como su autobiografía Confesiones de un burgués (todas en Salamandra), tienen algo que las caracteriza: la magia que sólo tiene la “gran literatura”. De estructuras similares -extensas conversaciones y largos monólogos-, densas y cuajadas de pensamientos brillantes; teatrales, “psicológicas”, de escasa acción y peripecia, y hasta de tono melodramático y sentimental, las novelas de Márai son, con todo ello, absorbentes y difíciles de soltar una vez que nos sumergimos en sus páginas y nos dejamos atrapar por sus meandros. Las palabras de sus personajes cautivan y seducen; tal como debieron de seducir las de su creador -así se atestigua- cuando hablaba en sociedad, pues solían ser pausadas y bien meditadas, incisivas, lúcidas e insoslayables. Aun así, voces críticas muy solventes opinan que en la mayor parte de estas celebradas novelas de Márai todo queda finalmente en fuego de artificio desvanecido en humo; no les falta razón, pero lo cierto es que el espectáculo es hermoso y nunca banal. Por otra parte, siempre permanece el aura y el recuerdo de ese ambiente que recrean, aquel mundo europeo de los años de entreguerras, mezcla de cosmopolitismo y grandiosa decadencia burguesa que, como en los relatos de Stefan Zweig, pertenece a una época que hoy nos parece elegante y romántica, un paraíso con cierto olor a podrido ya perdido para siempre.La novela que nos ocupa,no la he leído,y de las que he leído ,ha sido la mujer justa la que mas me ha llenado el alma.
    Estoy de acuerdo con la frase de que nunca es fácil amar.
    Amar es entre otras muchas cosas ,olvidarte del yo y centrarte en el vosotros,y eso evidentemente es casi imposible y yo diría que hasta un acto que va en contra de la propia naturaleza humana,en el que el yo, es dominante,y solo ante el milagro del Amor,se consigue salir de ese interior absoluto y depredador,para trasladar tu cuerpo y tu espíritu ,proyectándolo en el tu.
    Que pena que el autor al final de su vida ,no encontrara el consuelo del Amor,para evitar ese final tan trágico de su vida.que al igual que en el caso Zweig no encontrara otra salida vital,que el quitarse precisamente la vida..

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    1. Que bom saber que você o admira. Também li quase todos os livros dele traduzidos para o português. Faltou “Veredicto em Canudos”. Obrigado pelo comentário, querido Alfonso.

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