Construir uma identidade que nos dê acesso a um lugar no mundo e permita-nos navegar sem que nos dissolvamos nas turbulências do viver é sempre uma tarefa onerosa. Dar sentido à vida também. Intempéries causadas pelas interações humanas podem ser bastante impactantes, até devastadoras. A compreensão crível e útil a respeito de tudo isto, quando acontece, geralmente é tardia, sem sincronia com intenções, desejos, percepções e atos. E, ao fim, aos fins, é comum restar uma espécie de nostalgia de algo um tanto vago, que habita o espaço entre projetos de futuro e a percepção de tempo esgotado. Talvez surja a intuição do que se perdeu sem se ter tido. John Williams (Clarksville, Texas, 1922-Fayetteville, Arkansas, 1994) escreveu com grande delicadeza e profundidade sobre tais assuntos. “Stoner” é a estória de um jovem e humilde agricultor que, sem planejamento prévio, transforma-se em professor de literatura na universidade do Missouri no início do século XX. A possibilidade de embelezamento da vida ofertada pela poesia é a descoberta que o resgata da aridez vazia do percurso que até então fizera, numa reedição mecânica do que sucedera a seus antepassados. Não mais do que uma sucessão de tarefas a serem cumpridas adequadamente em que importava a aprendizagem por imitação. Stoner rompe esta cadeia. Muda seu destino. Desbrava. Recria-se. Formado, inicia o trabalho acadêmico. Conhece uma linda jovem de família abastada, com quem se casa sem conhecer quase nada dela. O lugar dela em sua vida era criado pelas fantasias e expectativas provocadas pelo que ela representava num universo idealizado. Há uma virgindade nefasta nesta união. A realidade traz a frustração, que passa a dar o tom na convivência. Revela-se imprevisível e indomável. Ele descobre nela uma personalidade doentia, cruel e destrutiva. Uma inimiga sem motivação racional ou, pelo menos, aparente. Têm uma filha cujo amor o alenta, mas a quem a esposa afasta dele quando percebe o bálsamo que lhe proporcionava. Ao abrigar-se na carreira depara com um colega que se torna hierarquicamente superior e que, incapaz de manejar a decepção consigo mesmo por ter um defeito físico, busca vingança contra o indefinível que o desgraçou e alívio para seu ressentimento, prejudicando a trajetória do protagonista dentro da universidade. E, indo além, destrói sua única experiência verdadeiramente amorosa com uma mulher. Stoner tolera as dores, quer amaciar o mundo sem o agredir, pela esperança de que lhe seja permitido prosseguir. Ao enfrentar tantas perdas desenvolve a capacidade de resiliência. Fortalece-se. E, se é possível falar de uma vitória, ela reside no resistir e persistir afirmando aquilo que se tornara seu esteio na travessia da vida, sua identidade e seus valores. Até o fim. Isto poderia ser material para um dramalhão de mau gosto, mas não é. Dista muito disto. Não há arroubos, não há pieguice. Há placidez narrativa. A simplicidade da trama reflete as histórias verdadeiras, passíveis de algum nível de universalização. Ficção cultivada nos âmagos de verdades. Encerra questões sofisticadas. As fragilidades, ou debilidades, da esposa e do colega que tinha a deformidade física são tratadas sem nenhuma condescendência e a maldade deles não é apresentada como justificável e nem desculpável. A aliança afetiva do leitor com William Stoner é quase inescapável. A sutileza não diminui a potência emocional do livro. Grande romance, que merecia uma tradução e revisão mais cuidadosas. Leitura que seduz, enternece e nutre, com delicadeza e grande força.
Título da Obra: STONER
Autor: JOHN WILLIAMS
Tradutor: MARCOS MAFFEI
Editora: RÁDIO LONDRES
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