NOTURNOS

Kazuo Ishiguro ganhou o prêmio Nobel de literatura em 2017. Nasceu no Japão (1954), mas cresceu e tem vivido na Inglaterra. Seu primeiro sucesso mundial foi “Vestígios do Dia”, traduzido para vários idiomas e também transformado em filme. Sua obra tem se caracterizado por diversidade de temas e formas de abordar a realidade que lhe importa. Desenvolveu o humor típico dos britânicos, de que lança mão com fartura neste conjunto de contos intitulado “Noturnos”. O modo de fazer graça é tangencial e joga com a aparição impertinente dos afetos inesperados. Este é um traço marcante, que costura as 5 estórias. Materializa-se nos enredos sobre as complicadas formatações a que as pessoas recorrem para qualificação, tentativa de controle, e utilização dos relacionamentos. No tratamento dos vínculos que estabelecem entre si. As razões e meios para aproximação e afastamento, união e ruptura, evidenciam elementos (talvez precariedades), que vistos de modo mais simpático, tornam-se cômicos. As transformações das pessoas e do que elas significam para outras, ao longo da vida, entram na constituição de todas as tramas destes contos, variando os espaços de tempo e cenários em que ocorrem. Encontramos protagonistas que nos falam da impossibilidade de se estar preparado e manejar a contento a mutabilidade que, para todos, é involuntária, inescapável, e que provoca desconcerto. Os indivíduos são obrigados a se defrontarem com a impermanência de suas concepções de mundo. O bom senso e o balizamento ético podem aparecer onde não são esperados e, de modo inverso, aquilo que parecia sensato, justo, e belo, pode passar a ser um tanto estapafúrdio nos microssistemas da convivência humana. Se quisermos falar sobre a delicadeza do autor neste livro, devemos dizer que ela não parece nada nipônica. A suavidade reside na falta de obviedade. Mas, pode haver solavancos. E isto acaba por tornar risível o esforço despendido para preservar a ilusão de simplicidade e clareza quanto à estrutura das ligações afetivas. A música, presente em todos os contos, é mais contraponto do que tema. Referência para as dissonâncias e atonalidades no andamento dos eventos. Não se caminha em linha reta. E não se pode confiar nas coreografias ensaiadas.

Título da Obra: NOTURNOS

Autor: KAZUO ISHIGURO

Tradutora: FERNANDA ABREU

Editora: COMPANHIA DAS LETRAS

 

noturnos

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