O TESTAMENTO DE MARIA

O cristianismo surgiu como uma seita, num mundo em que predominavam uma religião monoteísta, o judaísmo, e religiões politeístas, especialmente a greco-romana. Cresceu muito rapidamente após a conversão do imperador romano Constantino (272-337dC) e com os esforços de sua mãe Helena (250-330dC), também uma convertida, para difusão da nova fé. Uma espécie de história (estória?) destinada a prover com diretrizes os fiéis da religião que despontava foi cristalizada num livro, o Novo Testamento. Este foi escrito por diferentes indivíduos que acabaram funcionando como os primeiros idealizadores e, de certo modo, gestores na fundação da Igreja Católica. Maria, a mãe de Jesus, é tomada como a grande patrona da Igreja Católica e muito se tem feito para fundi-las numa mesma entidade. O irlandês Colm Töibín escreveu um pequeno e lírico romance, “O Testamento de Maria”, em que dá voz a essa mulher para que ela fale de seu sofrimento como a mãe que perdeu o filho de modo brutal e passou a ser também perseguida, refugiando-se em Éfeso sob a guarda de seguidores dele, ocupados em empreender a nova fé. Com esse intuito seus guardiães tinham que controlar as palavras e os atos da santa mãe, para quem estava destinado um papel crucial. Jesus tomava-se e era tomado como o Filho de Deus, de acordo com a visão da Igreja.  Maria duvidava disso, na perspectiva deste livro. No texto de Coibín Maria rememora a sequência de eventos que levaram seu filho à tragédia de imbuir-se da crença que o destruiria como o homem. Aquele que ela tinha gerado e que tão bem conhecia. Ela torna-se uma mulher exilada, vigiada e condenada ao silêncio, aguardando o próprio fim. Dorida pelo que enxergou nos últimos anos do filho, fica horrorizada com o que percebe quanto ao que é feito de sua memória/imagem após a crucificação. Nesse momento os criadores da nova religião arquitetam os evangelhos. O que contam não coincide com o que ela viu. Sua interpretação é muito diversa daquela dos primeiros genitores do cristianismo. As narrativas deles soam-lhe falsas e evidenciam a priorização da crença mística como artifício para recusar a realidade crua da vida. Ela ressente-se pela perda inútil do amado jovem a quem deu à luz, rebela-se contra a tentativa de apagamento do falecido marido, José, como real pai de seu filho. Sente indignação e pena pelo que considera um destrutivo desatino humano, talvez fruto da ingenuidade e do temor. Mais uma tentativa de muitos de engendrar cegamento para a vida. Repugna-lhe a recusa da verdade, na fé. Não há quase nada de misticismo em Maria. Onde é possível dizer que disto ela se aproxima (e com discrição) é na observação de ritos judaicos,  como o Shabat, ou na atração pela deusa greco-romana Artêmis, visitando seu templo e fazendo dela uma interlocutora muda. Maria é a mulher terrena que segue vivendo como tal, buscando compreender o que é possível. Sábia, contida, humilde e prudente, não grita nada ao mundo. Muito menos o fato de ser mãe daquele que é transformado gradualmente em parte de uma divindade maior. Não aprova a construção do mito. Desconcerta-se com a falta de razão e também com o oportunismo articulados através da crença. Horroriza-se com as intenções que percebe nos atos dos fundadores do cristianismo, com as artimanhas deles, das quais é testemunha. Pesa para ela a criação de um instrumento de poder tão grande e ameaçador. Indignam-lhe as estratégias do homem para dominar o homem, vê a violência disso. Recusa-se a instrumentalizar aquilo que é feito para iludir, para corromper a realidade. Respeita a crueza do mundo. Teme a força do Mal, tão bem disfarçado. Guarda silêncio.
Título da Obra: O TESTAMENTO DE MARIA
Autor: COLM TÖIBÍN
Tradutor: JORIO DAUSTER
Editora: COMPANHIA DAS LETRAS

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