QUESTÕES DE HONRA

Louis Begley, um dos bons escritores contemporâneos em língua inglesa, nasceu na Polônia em 1933. Escapou da morte no Holocausto graças à estratégia que seus pais empreenderam providenciando documentos falsos que atestavam serem eles uma família de arianos. Logo após o término da ll Guerra  imigraram para Nova York. Lá ele completou sua educação de nível médio. Depois ingressou em Harvard para estudar Literatura Americana, e mais tarde, Direito. Tornou-se um advogado bem sucedido. Aos 57 anos publicou seu primeiro livro ficcional, inaugurando uma carreira prolífica, em que grande parte do que escreveu contém elementos autobiográficos. “Questões de Honra” faz parte deste tipo de produção. O romance conta a estória de pessoas provenientes de mundos dos quais desejavam se libertar. Há um núcleo composto por três amigos, recém admitidos em Harvard, e que estabelecem vínculos de amizade que durarão para muito além do período de formação na universidade. Estes personagens apresentam muito do que há na biografia do autor. Um deles também judeu, viveu escondido com sua mãe, em casa de uma professora católica, durante toda a guerra. Como o autor, acabou por deixar a Polônia e mudar-se para os Estados Unidos. Alterou seu prenome e sobrenome. Viu na vida universitária, escolha profissional e nas ligações afetivas que estabeleceu, oportunidades para apagar as vivências trágicas de seu passado, que eram repetidamente atualizadas na relação com os pais. Seu amigo mais próximo, Sam, filho adotivo de uma rica e tradicional família da Nova Inglaterra, lutava igualmente para encontrar caminhos que o distanciasse dos pais pouco afetuosos e cujo comportamento o constrangia. Torna-se escritor, e é o narrador da trama. O terceiro amigo, Archie, é o componente um tanto obscuro do trio, lutando para extrair as porções mais lúdicas da vida, mas que acaba por se deparar com o um fim precoce (com a sinistra participação indireta da mãe). Há ainda um primo de Sam, George, que testemunha e faz contraponto aos três. Curiosamente, as figuras femininas vivem para além de uma barreira não transposta pelos protagonistas masculinos. A sutileza marca o tratamento de diversos temas, quase sempre relacionados á formação pessoal e posicionamento no universo em que se vive. São encenados movimentos próprios à incessante construção da identidade. Notavelmente, os conflitos, raramente configuram-se como interpessoais. Não envolvem os personagens em manobras explicitamente interativas. Parecem ser vividos quase exclusivamente na intimidade e solidão. A contenção é um tipo de refinamento em Begley. O espaço que admite intercâmbios crus, competitivos, e mais explicitamente agressivos, é o profissional. Este formato, sugere certa estética, almejada pelas elites americanas bem educadas. E é o diapasão do livro. A intensidade nunca é óbvia. A elegância formal tem precedência, mesmo que não diminua em nada a força das motivações em jogo. Quase uma questão de honra.
Título da Obra: QUESTÕES DE HONRA
Autor: LOUIS BEGLEY
Tradutor: SÉRGIO TELLAROLI
Editora: COMPANHIA DAS LETRAS

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2 comentários

  1. Doutor Luis. Boa Noite! Terminei, hoje, de ler “Questōes de Honra” de Louis Begley. Gostei muito. Obrigada. Forte abraço. Marisa Helena Coppola.

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